Ao menos em seus quatro primeiros filmes, a franquia “Todo Mundo em Pânico” evidenciava que, ao contrário das tendências de horror de sua época que parodiava, o futuro seria longevo e próspero. Afinal, ao contrário dos teen horrors advindos de “Pânico” e as refilmagens americanas de filmes asiáticos que viraram febre a partir de “O Chamado”, a sátira não tem uma data de validade.
No entanto, o destino se mostrou cruel para a cinessérie. Aaron Seltzer e Jason Friedberg, dupla envolvida na gênese de “Todo Mundo em Pânico”, decidiram descartar na privada todas as possibilidades criativas, investindo em um sem-número de outras paródias que cansaram o público. Eles assumiram sozinhos um lote execrável, iniciado em “Uma Comédia Nada Romântica” e morto com “Super Velozes, Mega Furiosos”.
No meio disso tudo, a própria marca “Todo Mundo em Pânico” cometeu suicídio com um quinto episódio terrível, paralisando qualquer chance de adição por longos treze anos. Esse tempo, inclusive, autorizou que os irmãos Wayans conseguissem se manifestar publicamente como os donos do império “Todo Mundo em Pânico”, que seria usurpado e repassado para David Zucker pelo produtor tirano Harvey Weinstein.
Reapossados dos direitos, temos um “Todo Mundo em Pânico” número seis onde não cansam de dizer para o público que são as mentes responsáveis por esse patrimônio. A autoridade como gênios da comédia, no entanto, cai por terra.
É verdade que “Todo Mundo em Pânico” deixou a sua marca na cultura pop. Além do mais, os Wayans já tinham provado certa genialidade há exatas três décadas com “Vizinhança do Barulho”, no qual se apropriaram de maneira bem cômica de todos os chavões de filmes de gueto oriundos do sucesso de John Singleton e Spike Lee. Isso sem falar em “As Branquelas”, um fenômeno sobretudo no Brasil.
Mas os Wayans também foram responsáveis por “Todo Mundo em Pânico 2”, o segundo mais fraco da tetralogia original, bem como por “O Pequenino”, “Ela Dança com Meu Ganso” e “Inatividade Paranormal”, três títulos no mínimo péssimos.
O que melhor oferecem em “Todo Mundo em Pânico 6” é a compreensão do zeitgeist que hoje os considera velhos e contemporâneos de outros indivíduos de meia-idade republicanos, que torcem o nariz para jovens que rediscutem suas sexualidades e linguagens.
Esse aspecto é o melhor e o mais autoral que testemunhamos nesse novo filme, no qual são muito evidentes as prestações de contas para a Paramount, o novo patrão de “Todo Mundo em Pânico” e do próprio “Pânico”.
Há muitos filmes licenciados de estúdios concorrentes para serem referenciados aqui, como “Ma”, “A Substância”, “A Hora do Mal”, “Pecadores”, “Longlegs – Vínculo Mortal”, “Corra!” e por aí vai. São ótimas opções à mesa, mas que aqui se comportam muito mais como esquetes sem qualquer noção de continuidade do que como algo que se encaixa organicamente com um roteiro que revê “Pânico 5” de cabo a rabo.
Portanto, embora apresente pontualmente algumas sacadas realmente excelentes, este “Todo Mundo em Pânico” é muito mais uma colcha de retalhos do que necessariamente um filme coeso. A obra ainda sacrifica o protagonismo de Anna Faris e Regina Hall para a defesa de uma tese que se descortina somente nos minutos finais.
★★
Scary Movie
Dirigido por Michael Tiddes
Em exibição nos cinemas (Paramount Pictures)

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