Resenha Crítica | Os Banshees de Inisherin (2022)

Os Banshees de Inisherin

Vencedor do Oscar pelo curta-metragem de 2004 “O Revólver de Seis Tiros”, Martin McDonagh foi se notabilizando desde então no formato de longa-metragem investindo em um humor tipicamente britânico. É um estilo em que a moralidade de seus personagens se perdia quando percebidos como rivais em meio a um sem-número de homicídios.

Ironicamente, embora “Três Anúncios Para Um Crime” seja a sua obra mais popular, é talvez a mais controversa e divisiva de sua carreira, com reações de amor e ódio não tão desiguais na intensidade.

Independente de sua opinião diante de títulos prévios de Martin McDonagh, a verdade é que “Os Banshees de Inisherin” fideliza fãs de longa data, reconquista os que se tornaram detratores de seu cinema e encanta passageiros de primeira viagem.

A razão está em prosseguir fornecendo uma autoria reconhecível em narrativas com indivíduos de algum modo estagnados emocionalmente diante da banalidade e barbaridade da vida, mas agora em um contexto mais sutil e introspectivo.

Embora saibamos que Pádraic (Colin Farrell) e Colm (Brendan Gleeson) sejam melhores amigos, “Os Banshees de Inisherin” decide iniciar a sua história em um ponto de impasse, no qual o segundo corta laços com o primeiro, a princípio, sem razões plausíveis.

A insistência de Pádraic, que mora com a irmã Siobhán (Kerry Condon), enfim faz Colm revelar o que o motiva a encerrar a relação. Ciente de sua velhice, prefere investir o tempo em atividades produtivas em vez de gastá-lo em conversas mundanas.

A fotografia de Ben Davis traz a impotência da remota Costa Oeste da Irlanda de 1923, mas Martin McDonagh está interessado em apresentar esse ambiente com tintas frias e melancólicas, como se nada houvesse para os seus personagens além do tédio.

São também tempos de atividade do IRA, quebrando quase todas as expectativas de existência além desse lugar com as constantes explosões testemunhadas no limite das paisagens.

Porém, esse sentimento de vazio de modo algum indica que as figuras humanas centrais de “Os Banshees de Inisherin” sejam desprovidas de interesse. Ao contrário, pois é até curioso como Martin McDonagh não alteraria a qualidade de seu filme caso a perspectiva privilegiada não fosse a de Pádraic e Colm.

Como Siobhán, uma mulher no dilema entre consolar o seu irmão ou tentar uma vida em outro endereço, Kerry Condon está extraordinária e renderia um drama todo para si.

O mesmo pode ser dito sobre Barry Keoghan como um garoto abusado por seu pai policial (Gary Lydon) ou Sheila Flitton, esta interpretando uma senhora que vaga pelas trilhas de pedras com terríveis previsões.

Acima de tudo isso, é também muito belo como Martin McDonagh avalia camaradagens a partir de época e cenário tão distantes da contemporaneidade, além de como mulheres e jovens são afetados por grupos que nada de favorável são capazes de oferecer.

Há vários lampejos de comicidade, mas McDonagh faz de “Os Banshees de Inisherin” o filme mais melancólico de sua carreira.

★★★★
The Banshees of Inisherin
Dirigido por Martin McDonagh
Disponível na Disney+
Texto originalmente publicado em 07/01/2023

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