Resenha Crítica | Aftersun (2022)

Aftersun

Até então curta-metragista, a escocesa Charlotte Wells definitivamente não se furta de ser totalmente íntima e pessoal ao alçar voos mais altos com “Aftersun”, a sua estreia no formato de longa-metragem.

Mesmo o espectador desavisado não precisará de acesso prévio à biografia de Wells para saber que aqui se reproduzem memórias e sensações daquele que revela ser o último encontro entre um pai e sua filha em férias de verão ambientadas nos anos 1990.

Sophie (a estreante Frankie Corio), uma menina de 11 anos, tem uma oportunidade então inédita em sua vida: passar alguns dias em viagem pela Turquia com o seu jovem pai, Calum (Paul Mescal), a quem pouco via após um divórcio.

Evidentemente, esse processo de reaproximação com a figura paterna coincide com o início das primeiras experiências que uma criança faz rumo à fase adolescente, do acesso ao proibido até as interações que a fazem ter uma compreensão mais clara do funcionamento do mundo adulto.

Embora Charlotte Wells esteja construindo um drama que, ao mesmo tempo, serve de expurgo de seu luto permanente, é curioso perceber decisões narrativas e estéticas em “Aftersun” que revelam ao público um desejo de comentar sobre como se perdem as tradições de preservação da memória.

Isso ocorre diante de um mundo que passou a ter um entendimento diferente sobre o assunto pelo excesso de suportes e a instantaneidade dos registros, que muitas vezes somem com o passar de 24 horas sem qualquer interesse posterior de resgate.

Assim, os takes do ponto de vista de pai e filha com o uso de uma miniDV trazem um significado especial como registro privado, bem como a Polaroid que ganha vida enquanto ambos dialogam.

É um filme que estabelece um diálogo muito direto com outro feito há quase 20 anos, “Do Jeito que Ela é”, belo drama em que o diretor e roteirista Peter Hedges rememora a mãe que perdeu uma batalha contra um câncer ao encenar aquele que pode ser o último encontro da personagem de Patricia Clarkson com toda a família durante o feriado de Ação de Graças. Não à toa, a conclusão dessa história se dá por cliques de uma câmera analógica.

Para além disso, Charlotte Wells constrói uma série de outras cenas que expressam o seu domínio como uma diretora que sabe estabelecer uma abundância de emoções sem que, com isso, o pieguismo contamine o seu registro.

Ela utiliza a música como recurso para comunicar sentimentos não verbalizados, como a cena em que Sophie canta “Losing My Religion”, do R.E.M., em um karaokê, ou o clímax com uma “Under Pressure” que perde os seus instrumentais para a voz de David Bowie ecoar no silêncio. É um filme feito para chorar que utiliza os mecanismos audiovisuais mais honestos para isso, algo definitivamente raro.

★★★★
Aftersun
Dirigido por Charlotte Wells
Assistido na 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
Disponível na MUBI
Texto originalmente publicado em 06/12/2022

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