Resenha Crítica | O Leitor (2008)

O Leitor

Ainda que não seja um grande feito no cinema do diretor Stephen Daldry, muitos têm agido de forma injusta em relação à recepção dada ao drama “O Leitor”. As críticas ganharam força de acordo com as cinco indicações que o longa obteve na última edição do Oscar, o que foi uma surpresa, de fato.

Muitos interpretaram que foi a produção a ocupar a vaga deixada por “Batman: O Cavaleiro das Trevas” na categoria de melhor filme. Mesmo sendo uma adaptação de quadrinhos mais soturna do que de costume, era improvável que a Academia considerasse a obra de herói em departamentos mais importantes, abrindo exceção para o prêmio póstumo de ator coadjuvante a Heath Ledger.

No fim das contas, Kate Winslet foi a atriz que arrebatou a estatueta em um papel que seria originalmente de Nicole Kidman. Antes cotada como coadjuvante pelas premiações precursoras, a Academia reverteu tudo, considerando-a como protagonista.

Uma escolha acertada, ainda que sua Hanna Schmitz não seja quem conduz a fita de fato, e sim Michael Berg (vivido pelo soberbo David Kross na fase adolescente e por Ralph Fiennes quando mais velho). Há uma pequena alternância de tempos na narrativa, mas os dois primeiros atos são reservados ao relacionamento de Hanna e Michael, então com quinze anos de idade.

Depois de passar mal ao retornar do colégio, o jovem é socorrido por Hanna, que trabalha como cobradora em um transporte público. Ele terá a sua primeira relação sexual com essa mulher, que tem mais do que o dobro de sua idade, fazendo crescer ali uma paixão quase obsessiva.

Existe também uma troca de favores entre o casal: Hanna oferece sexo enquanto Michael retribui com leituras de grandes clássicos da literatura universal, já que ela esconde o fato de ser analfabeta. Entre os romances lidos em voz alta estão “O Amante de Lady Chatterley” (D. H. Lawrence), “A Odisseia” (Homero), “A Dama do Cachorrinho” (Anton Tchékhov) e “Guerra e Paz” (Liev Tolstói).

Incompreendido por uma parcela dos espectadores, “O Leitor” despertou certa fúria da crítica e do público por conta dos rumos de seu segundo ato, que traz ecos diretos sobre a Segunda Guerra Mundial. Nesse instante, Michael, já abandonado por Hanna sem razão aparente e um pouco mais velho, cursa Direito e tem Rohl (Bruno Ganz) como seu professor titular.

Quando acompanha pela primeira vez um julgamento real, ele se depara novamente com Hanna. A antiga amante está no banco dos réus, dada como culpada pela morte de centenas de judeus enquanto atuava como vigia em um campo de concentração nazista.

Os resultados dessa reviravolta são tocantes, ainda que a história não seja conduzida com a mesma maestria apresentada por Daldry no primeiro ato ou na sequência dos instantes finais, protagonizada por Fiennes e Lena Olin.

Esse encontro final, mesmo dando margem para diversas interpretações, traz a descrição mais acertada do que pode ser absorvido sobre o projeto. Trata-se de uma análise sobre figuras totalmente envolvidas pelo passado trágico que viveram. Michael segue marcado pela paixão da adolescência que não conseguiu superar; Hanna é assombrada pelos atos monstruosos que cometeu; e Ilana (Olin) lida com a forma devastadora como foi atingida pela Alemanha nazista.

Nos três casos apresentados, o enredo deixa claro que somente a coragem em encarar o passado de frente é o caminho para que o episódio seja superado e as dores devidamente amenizadas.

★★
The Reader
Dirigido por Stephen Daldry
Assistido em DVD (Imagem Filmes)
Texto originalmente publicado em 09/07/2009

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