O cineasta dinamarquês Lars von Trier é considerado por muitos cinéfilos como o diretor mais polêmico em atividade. Não se trata de uma afirmação exagerada, já que cada um de seus filmes sempre é alvo de controvérsia quando lançado.
Com o recentemente apresentado “Anticristo”, a situação não foi diferente, a exemplo da exibição barulhenta no Festival de Cannes deste ano. A reação ao término da fita se sucedeu entre vaias e aplausos calorosos.
Mas o verdadeiro resultado do longa-metragem atinge um equilíbrio diante desses dois pesos díspares: é interessante o suficiente ao ponto de não ser um projeto desastroso, só que de tão desorientado fica difícil apreciá-lo por completo.
A história é dividida em quatro capítulos bem definidos: “Luto”, “Dor – O Caos Reina”, “Desespero – Genocídio” e “Os Três Mendigos”. No prólogo sensacional, flagramos um casal — definido na trama apenas como Ele (Willem Dafoe) e Ela (Charlotte Gainsbourg) — fazendo sexo enquanto o único filho deles morre em uma queda ao se aproximar de uma janela aberta.
O marido supera a perda com o tempo, enquanto a esposa não é capaz de processá-la, afundando em uma profunda depressão. Ele, que trabalha como psicólogo, propõe à companheira se isolarem em uma cabana chamada Éden, no meio de uma densa floresta, para submetê-la a tentativas de controle das emoções.
No entanto, a reclusão voluntária se transforma em um pesadelo real. Isso ocorre à medida que estranhos fenômenos começam a se materializar no ambiente.
A ideia para esta realização surgiu no longo período de depressão do diretor Lars von Trier. Os enigmas vistos na tela são resultados diretos de pesadelos e sentimentos de angústia vividos por ele.
Contudo, sua vontade aqui está mais em exorcizar os seus próprios demônios com sequências arrepiantes do que em explicá-los ao espectador. Aí reside a frustração que a produção rende, mesmo que Willem Dafoe e especialmente Charlotte Gainsbourg se entreguem a valer em seus respectivos personagens.
Nada contra fazer um cinema totalmente autoral ou aplicar para o público a responsabilidade de compreender por si mesmo o que está sendo assistido. O problema é transformar a narrativa em algo que sobrevive mais como uma experiência perturbadora e menos como cinema estruturado.
É verdade que quem acompanha o trabalho de von Trier já terá alguma base do que esperar. No entanto, as suas outras obras mais conhecidas, como “Dançando no Escuro” e “Dogville”, são trabalhos muito mais gratificantes de serem contemplados. São projetos que se locomovem com praticamente as mesmas ferramentas estéticas, mas trazem uma arrogância moderada por parte de seu criador.
★★★
Antichrist
Dirigido por Lars von Trier
Assistido em DVD (California Filmes)
Texto originalmente publicado em 23/09/2009

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