Resenha Crítica | Tudo Azul (2007)

Tudo Azul

A frase destacada no cartaz internacional de “Tudo Azul” nos dá uma clara noção da excentricidade da comédia: “Toda família tem uma ovelha negra. Esta é azul”.

A frase é levada a sério por Scott Prendergast, que além de protagonizar, também se responsabiliza pela direção e pelo roteiro de “Tudo Azul”. E é bom ficar atento ao nome do cineasta.

Depois de três curtas-metragens, ele tem aqui a sua estreia na direção de um longa-metragem. O seu primeiro passo se dá com um projeto pequeno e independente, mas certamente se trata de um dos títulos mais originais desse nicho.

O início do enredo se dá com Leslie (Lisa Kudrow, em um grande momento de sua carreira) desesperada com a situação atual de seus filhos endiabrados, Lincoln e Cameron (interpretados respectivamente por Landon Henninger e Cameron Wofford).

O seu marido teve que partir para a Guerra no Iraque, e ela descobre que só há o seu cunhado, Salman (Scott Prendergast), como única pessoa disponível para lhe auxiliar neste momento difícil. Ela o convida para morar em sua casa, com a condição de que ele terá que cuidar das crianças.

Mas, como as coisas não dão certo (Lincoln e Cameron de fato parecem demônios em miniaturas), Leslie consegue encaixar Salman em uma vaga na estranha empresa na qual trabalha, pois assim ele pode contribuir para que os meninos fiquem em uma escola particular por tempo integral.

Pior emprego ele não poderia arrumar. Salman veste a roupa esponjosa do Kabluey, a criatura azul e fofa que estampa o logotipo da empresa comandada por Brad (Jeffrey Dean Morgan, o Comediante de “Watchmen: O Filme“), da qual Leslie é assistente.

O seu dever é ainda mais ingrato: ele precisa distribuir panfletos em uma estrada ensolarada e sem qualquer movimento.

Mas as adversidades não assolam somente os personagens centrais da produção, como se pode analisar nas pessoas que cruzarão de maneira inusitada o seu caminho, a exemplo da neurótica Suze (a impagável Teri Garr, eternamente lembrada como a melhor amiga de Dustin Hoffman em “Tootsie”).

Os acontecimentos iniciais são hilariantes. A começar, claro, quando vemos Salman se virando naquele que foi o seu último emprego, que era o de plastificar os mais diversos documentos (o sujeito se empolga tanto com o ofício que chega até mesmo a plastificar as cédulas da caixa registradora).

A comédia dramática segue um caminho parecido com aquele apresentado em “Pequena Miss Sunshine“, com o diferencial de fazê-lo com uma maestria ainda maior. É dentro desse humor que começa a aflorar a sensibilidade do projeto, tornando-se um registro comovente sobre os efeitos devastadores que a ausência de afeto pode causar em qualquer ser humano.

Esse sentimento é visto como metáfora na própria fantasia de Salman, que só é capaz de tocar algum objeto e de se mover com maior leveza quando está presente alguma pessoa que possa ajudá-lo.

Isso também é perceptível em Leslie, que se tornou uma pessoa fria após imaginar que o seu marido pode não mais regressar ao seu lar (e Lisa Kudrow eleva ainda mais essa emoção em um devastador plano-sequência no qual vemos a sua personagem se desintegrando aos poucos), e na conduta dos seus filhos, que obviamente sofrem com a ausência de uma figura paterna. Maravilhoso!

★★★★★
Kabluey
Dirigido por Scott Prendergast
Assistido em DVD (Prime)
Texto originalmente publicado em 06/10/2009

Infelizmente, este título não está disponível no Brasil neste momento.
Source: JustWatch

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