Entrevista com Pierre Salvadori, diretor de “O Beijo Elétrico”

Pierre Salvadori

Crédito da foto: Remy Ariges/Le Monde

Nascido na Tunísia, o diretor e roteirista Pierre Salvadori, que completa 62 anos no próximo domingo, 8 de novembro, está realizando cinema há mais da metade de sua vida. Em um período em que o cinema francês experimentava bilheterias muito expressivas de modo recorrente no circuito exibidor brasileiro, se beneficiou com duas colaborações com Audrey Tautou, atriz que hoje está dedicada à fotografia.

Em ambos os projetos, “Amar Não Tem Preço” (2006) e “Uma Doce Mentira” (2010), mostrou um interesse bastante particular em articular narrativas cômicas em que os protagonistas são movidos por alguma mentira. Uma premissa que não escapou de reproduzir novamente em “O Beijo Elétrico”, longa-metragem de época que abriu o Festival de Cannes deste ano e que agora integra a programação do Festival de Cinema Francês do Brasil.

Em entrevista concedida para o Cine Resenhas, Pierre Salvadori nos conta sobre a concepção “O Beijo Elétrico”, que nasceu há 10 anos em “A Grande Ilusão”, dirigido por Rebecca Zlotowski e protagonizado por Natalie Portman, além de afirmar o desprezo por Inteligência Artificial como um recurso em história cheia de truques e ilusões.

Pierre, eu sinto que boa parte dos seus filmes, como os que fez no passado com Audrey Tautou, sempre há personagens envoltos, de certa forma, em alguma mentira. Em “O Beijo Elétrico”, também temos uma protagonista inserida nesse contexto. Me conta um pouco sobre essa sua fascinação por personagens com esse caráter?

Sim, de fato, nos meus filmes há frequentemente personagens que recorrem à mentira. Não são necessariamente personagens que mentem para manipular ou para alcançar fins pessoais medíocres. Às vezes, acho que a mentira é a expressão de uma grande vitalidade, é o desejo de querer sobreviver a todo custo.

Então, meus personagens usam a mentira como um último recurso, como uma possibilidade de sobrevivência. Isso me interessa. Além disso, a mentira também é uma ferramenta — como eu faço comédias, ela é uma ferramenta preciosa, porque quando a mentira está no coração da narrativa, o espectador sabe de algo que os protagonistas e os personagens ignoram. É uma forma de puxar o espectador para dentro do filme. O espectador se torna quase um cúmplice daquele que mente; ele sabe de algo e isso lhe dá uma vantagem na história.

É uma técnica de escrita de comédia, mas também é uma forma de vitalidade e de desespero que me interessa. Existe desespero e vitalidade na mentira.

No filme “O Beijo Elétrico”, todo mundo sabe que ela está mentindo. E é isso que desperta o interesse: como ela vai fazer, como vai sair dessa? Há uma ironia permanente, o que chamamos de ironia dramática. O mesmo acontece no meu filme com a Audrey Tautou, “Amar não Tem Preço”: é uma personagem em uma situação desesperada que, para se safar, recorre à mentira. Gosto muito de mostrar personagens moralmente ambíguos, que fazem o que podem para se reerguer e atravessam momentos de ambiguidade.

O Beijo Elétrico

Assistindo a “O Beijo Elétrico”, não pude deixar de pensar em como o cinema também não deixa de ser uma mágica — uma mágica no sentido de que o espectador se depara com uma ilusão. Queria saber se você tem essa visão do cinema como uma ilusão de imagens e se evita certos resultados pré-fabricados. A inteligência artificial é uma discussão muito presente hoje em dia. Como você enxerga isso?

A relação entre a ilusão e o cinema é um dos grandes temas do meu filme: a necessidade de acreditar. A necessidade de acreditar na ilusão, a necessidade de crer para sobreviver. Falamos da mentira, mas também existe a pessoa que precisa acreditar e que está pronta para tudo a fim de continuar esperando. Para que uma mentira funcione, é preciso que do outro lado haja uma vontade de crer.

Isso vale para os personagens — principalmente o Antoine, que não consegue aceitar a morte da esposa e o luto —, e vale para nós: quando somos espectadores e vamos ao cinema, nós queremos acreditar.

Sobre os métodos de escrita e o meu processo de trabalho: eu não uso absolutamente nada de Inteligência Artificial. Porque a IA é algo que absorve tudo o que já foi feito. Portanto, o que ela vai te entregar será apenas uma mistura do que já existe. É um conhecimento acumulado e devolvido, mas jamais haverá invenção. Quando escrevemos, tentamos sempre encontrar algo novo e diferente.

Eu teria a sensação de estar mentindo. Por mais que eu fale sobre a mentira nos meus filmes, eu jamais conseguiria fazer isso. Teria a impressão de estar mentindo para o espectador, de não estar oferecendo uma parte de mim, mas sim uma parte de todos os outros. O texto precisa vir de mim, não da acumulação de todos os filmes do mundo em um caldeirão.

Desconfio muito das narrativas geradas por IA e, às vezes, até consigo identificá-las. Quando vejo um filme ou uma série e percebo o uso de IA, é porque reconheço cenas, situações, cenários e personagens que já vi antes. Vejo algo genérico sendo reciclado a partir de um prompt, em vez de ver algo íntimo e inédito.

Uma curiosidade sobre “O Beijo Elétrico” é que ele nasceu a partir de uma interação que você teve no filme “Além da Ilusão” (“Planetarium”, de 2016), da Rebecca Zlotowski. Me conta um pouco mais sobre essa história e como foi desenvolver um projeto ao longo de tantos anos?

Na verdade, eu atuei como ator em “Planetarium”. Nesse filme, eu interpretava um diretor de cinema. A Rebecca Zlotowski me perguntou: “Pierre, você aceita fazer o papel de um cineasta no meu filme, já que você é um cineasta na vida real?” Eu aceitei.

Ela me disse que haveria muita improvisação e explicou: “Inventei uma historinha para o filme fictício que seu personagem está dirigindo. Vou te contar para que você saiba do que se trata na cena”.

A história que ela me contou era sobre uma jovem mulher que finge ser vidente e convence um viúvo de que pode colocá-lo em contato com a falecida esposa. Só que ela se apaixona pelo viúvo e acaba se tornando a porta-voz da própria rival morta. Quanto mais ela faz a falecida “aparecer”, mais ela mesma desaparece aos olhos do homem que ama.

Achei aquela premissa de ficção belíssima e muito poética. Disse a ela: “Você deveria fazer um filme sobre isso!” E ela respondeu: “Não me interessa dirigir isso, mas se você quiser a ideia, é sua”.

Então eu acabei realizando, na vida real, o filme que o meu personagem estava dirigindo dentro do filme da Rebecca! Eu gostava tanto daquela história que perguntei se podia usá-la, e ela me deu. É algo muito metalinguístico. Fiz o filme que não existia na realidade, apenas dentro da ficção.

Agradecimentos à Agência Febre pelo convite de cobertura e ao trabalho do intérprete Rogério Marques, que nos ajudou na condução dessa entrevista.

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