Ainda que eu já tenha largado a mão de M. Night Shyamalan, reconheço que aqui ele proporciona um bom jogo de tensão a partir da situação elaborada: a caçada a um assassino em série dentro do show de uma popstar adolescente.
Sinto inclusive que é a primeira vez em muito tempo que ele valoriza os atores dispostos a apoiá-lo.
Não gosto da construção e do uso da personagem da veterana Hayley Mills, mas Josh Hartnett, Alison Pill e Ariel Donoghue mandam muito bem.
Também é preciso reconhecer que Saleka segura as pontas aqui, sobretudo quando o envolvimento de sua figura na tal armadilha é ampliado.
Não é fácil construir um suspense privilegiando no protagonismo um psicopata, e Shyamalan novamente desperdiça a chance de entregar uma grande obra porque parece regredir como roteirista.
Ainda assim, ele estabelece bons achados visuais ao contar com a direção de fotografia de Sayombhu Mukdeeprom (colaborador frequente de Joe Apichatpong Weerasethakul e Luca Guadagnino).
Se antes ficamos embasbacados por um cineasta com menos de 30 anos ter entregado uma obra-prima como “O Sexto Sentido” (um modelo no qual as pontas são tão bem atadas que nos faz repetir a experiência inúmeras vezes), aqui o diretor se apresenta como aquele veterano com preguiça de encontrar saídas plausíveis para manter a sua narrativa em movimento, inclusive subestimando a inteligência do espectador.
Sempre há uma pessoa aleatória para entregar o que acontece de bandeja para o protagonista. Há até a filha adolescente que está realizando o sonho de vida ao ver a ídolo ao vivo, mas que mesmo assim faz questão de sair no meio da apresentação do show para comprar uma camiseta tamanho P.
Se você perdoa esses sinais de escrita conveniente dizendo que a arte do cinema também é feita de absurdos, parabéns, pois eu não tenho paciência.
De potencial Hitchcock, Shyamalan hoje está mais para um James Patterson do cinema. Uma pena.
★★★
Trap
Dirigido por M. Night Shyamalan
Exibido nos cinemas (Warner Bros.)

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