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Resenha Crítica | Azul é a Cor Mais Quente (2013)

Azul é a Cor Mais Quente | La vie d'Adèle

Em “Vênus Negra”, o cineasta Abdellatif Kechiche testou os limites da plateia ao encenar as perversidades que marcaram a breve existência de Saartjie Baartman, uma mulher de anatomia incomum que sobrevivia se apresentando como uma atração exótica. Em seu novo longa-metragem, “Azul é a Cor Mais Quente”, Kechiche está mais brando, mas ainda assim não deixa de nos atrair para uma experiência forte.

A fonte que inspira “Azul é a Cor Mais Quente” é incomum. Trata-se do comic book homônimo de Julie Maroh originalmente publicada em março de 2010 – nada desse universo é preservado no longa-metragem. O modo bruto com que Kechiche filma impõe-se nos primeiros instantes em que acompanha a jovem Adèle (Adèle Exarchopoulos, exemplar). A câmera está a todo o momento a um ou dois palmos de seu rosto. Vê-se cada linha que forma suas expressões e ouve-se cada respiro. Temos uma jovem sufocada em sua própria existência e que logo se deixará levar pelos seus desejos mais íntimos.

No colégio, Adèle é constantemente observada por Antoine (Jérémie Laheurte), músico que não esconde a sua atração por ela. Adèle tenta corresponder, mas não consegue. Quando acaricia a si mesma, os pensamentos de Adèle são invadidos pela imagem de Emma (Léa Seydoux), estudante de Belas Artes com o cabelo tingido de azul e lésbica assumida com quem só trocou alguns olhares enquanto atravessava uma rua. É claro que as duas se encontrarão e o romance acontecerá quando Adèle finalmente se livrar de suas próprias amarras.

O que se segue é uma observação de um romance homossexual sujeito aos mesmos altos e baixos de uma relação heterossexual. O roteiro assinado por Ghalia Lacroix e também por Kechiche não se comporta cegamente diante das intolerâncias que o romance entre Adèle e Emma certamente testemunhará. As amigas de Adèle serão agressivas ao suspeitarem de sua orientação sexual e seus pais não são tão liberais quanto a mãe e o padrasto de Emma.

“Azul é a Cor Mais Quente” vai além desse discurso ao concentrar maior interesse na dinâmica desse casal que se forma. Originalmente idealizado como uma história dividida em dois capítulos, “Azul é a Cor Mais Quente” busca compreender o que faz um romance aparentemente inabalável ser gradativamente enfraquecido quando o convívio e, consequentemente, a rotina se manifestam.

Em sua primeira metade, há Adèle descobrindo a si mesma e se entregando de corpo e alma para Emma. Todos os beijos, companhias em jantares e troca de confidências são mágicos e o sexo ardente vem como algo esperado em uma relação em que há tanta química. Aliás, soa até absurda a polêmica em torno de duas transas quase registradas com riqueza de detalhes por Kechiche, comprovando a caretice do espectador contemporâneo diante de algo que celebra o ápice entre duas pessoas que se amam.

Já a segunda metade de “Azul é a Cor Mais Quente”, cujo ponto de largada é justamente aquele em que Emma já abandonou as madeixas tão azuis quanto os seus olhos, é o princípio do fim: o ciúme desenfreado, os atritos, as saídas de casa sem justificativas e a ascensão profissional consumindo as energias antes preservadas para a intimidade. É neste momento em que “Azul é a Cor Mais Quente” perde pontos em autenticidade, pois usa alguns mecanismos fáceis para representar a autodestruição de Adèle, como os personagens secundários que só exercem a função de abalar algo consolidado.

La vie d’Adèle, 2013 | Dirigido por Abdellatif Kechiche | Roteiro de Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado no livro em quadrinhos homônimo de Julie Maroh | Elenco: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Mona Walravens, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Benjamin Siksou, Alma Jodorowsky, Jérémie Laheurte, Anne Loiret, Benoît Pilot, Sandor Funtek, Fanny Maurin, Maelys Cabezon, Samir Bella, Tom Hurier, Manon Piette e Quentin Médrinal | Distribuidora: Imovision

4 Comments

  1. Marcelo Fs Marcelo Fs

    Espero que vaze bem depressa – não tenho pique para ver três horas de filme dentro do cinema. Pretendo ver em casa mesmo!

  2. Alex, concordo contigo nas observações sobre o filme, mas de qualquer forma, acho que fui mais tocada do que você ao vê-lo. Apesar de pecar pela perda da autenticidade na segunda parte, como você bem citou, eu gosto de filmes que buscam retratar histórias de amor, paixão, ganhos e perdas entre pessoas, em detrimento de rótulos. Acho interessante a proximidade da câmera nos rostos, a sensação de sufocamento, os tons de azul no universo da personagem (em alguns momentos de maneira exagerada) dando pistas do que se passa no íntimo dela além, claro, da atuação da Adèle Exarchopoulos. O filme tem alguns pecados, mas para mim, isto não o impede de ser uma bela obra.
    Beijos, meu amigo.

  3. “Azul é a Cor Mais Quente” me surpreendeu pela simplicidade. Não é um filme pedante ou sequer muito metafórico, o que, para mim, vai totalmente de acordo com a proposta do diretor de simplesmente mostrar a vida como ela é. Um dos filmes que mais me envolveu em 2013 =)

  4. […] em homevideo no mês de dezembro, temos o vencedor da última Palma de Ouro em Cannes, “Azul é a Cor Mais Quente“, assumindo a liderança de modo muito expressivo diante dos demais filmes: a produção […]

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