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Resenha Crítica | O Lobo de Wall Street (2013)

O Lobo de Wall Street | The Wolf of Wall Street

Seguidores do cinema de Martin Scorsese precisam admitir: há quase duas décadas que o cineasta não lançava um longa-metragem que se aproximasse dos seus momentos mais gloriosos. Ainda que tenha conquistado o reconhecimento do Oscar com “Os Infiltrados“, não havia nesta refilmagem de “Conflitos Internos” aquela fúria de um Scorsese tão aclamado com o modo que retratou a marginalidade, a corrupção e o poder em obras-primas como “Taxi Driver”, “Os Bons Companheiros” e “Cassino”. As coisas definitivamente mudaram para Scorsese e “O Lobo de Wall Street” é uma comprovação disso.

Mesmo considerado indigesto por uma boa parcela da imprensa mundial, “O Lobo de Wall Street” conseguiu o feito de assegurar cinco indicações ao Oscar 2014 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill) e Melhor Roteiro Original. Sairá de mãos vazias, mas é admirável que até os mais conservadores foram receptivos a um Scorsese versão LSD. Isso mesmo: “O Lobo de Wall Street” é um filme alucinado em cada um de seus 180 minutos e o feito do cineasta em nos fazer emergir na narrativa já o converte em um dos melhores títulos de toda sua filmografia.

Além do próprio Martin Scorsese, finalmente Leonardo DiCaprio aparece totalmente desarmado em um filme. Aqueles vestígios de um ator imaturo em papéis cheios de camadas em que ele era incapaz de preencher ficaram para trás. Como Jordan Belfort, figura real cuja autobiografia inspirou o roteiro de Terence Winter, Leonardo DiCaprio lida de modo convincente com a transição difícil de um jovem inexperiente no mercado mercado financeiro para um homem totalmente descontrolado e podre de rico que mergulhará em uma queda vertiginosa.

Ao entrar com o pé direito em Wall Street e testemunhar imediatamente a queda do maior império financeiro do mundo e, consequentemente, de seu modelo profissional Mark Hanna (Matthew McConaughey, fazendo valer cada segundo de sua participação especial), Jordan decide caminhar com os próprios pés. Primeiro mostrando o seu valor dentro de uma empresa risível. Depois selecionando um bando de losers como componentes perfeitos para a equipe de seu próprio negócio. As práticas fraudulentas elevam Jordan a uma posição em que absolutamente nada tem um limite.

Para o bem ou para o mal, Scorsese se deixa envolver pela inconsequência de Jordan. Não é algo que contamina a sua técnica única, mas o modo como exibe o freak show em que seu protagonista é o host. Portanto, a frequência com que notas de 100 dólares são descartadas não é a a única extravagância que “O Lobo de Wall Street” se permite. Salões de orgias e consumo de drogas são alguns dos principais ambientes explorados e o humor alterna-se entre a misoginia e o cartunesco.

Daí muitos culparem Scorsese de se deslumbrar pelo universo de Jordan em “O Lobo de Wall Street”. Não é o que o cineasta faz, como deixa claro especialmente em uma sequência brilhante em que Jordan tenta subornar um agente interpretado por Kyle Chandler. Mesmo que Jordan seja a materialização do que muitos almejam em uma sociedade capitalista, valeria a pena se deixar corromper pelo desejo de enriquecer ao ponto de se descaracterizar e dominar uma “alcateia”? Ao julgar pela massa facilmente manipulável que se comporta como um reflexo de uma sala de cinema lotada, talvez. E isso é desesperador.

The Wolf of Wall Street, 2013 | Dirigido por Martin Scorsese | Roteiro de Terence Winter, baseado na autobiografia de Jordan Belfort | Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jon Favreau, Jean Dujardin, Joanna Lumley, Cristin Milioti, Christine Ebersole, Shea Whigham, Katarina Cas, P.J. Byrne, Kenneth Choi, Brian Sacca, Henry Zebrowski e Aya Cash | Distribuidora: Paris Filmes

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