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Resenha Crítica | A Pele de Vênus (2013)

A Pele de Vênus | La Vénus à la fourrureLa Vénus à la fourrure, de Roman Polanski

Em sua rica filmografia, Roman Polanski flertou ao menos em três ocasiões com o teatro. Extraordinário, “A Morte e a Donzela”, inspirado na peça de Ariel Dorfman, trouxe Sigourney Weaver, Ben Kingsley e Stuart Wilson confinados em uma casa enquanto reavalivam traumas de um passado perturbador. Há três anos, o cineasta escalou Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly para levar aos cinemas “Deus da Carnificina“, originalmente escrito para os palcos por Yasmina Reza. Durante 80 minutos, é promovida uma lavação de roupa suja que resulta em um dos feitos menos impressionantes do cineasta. A terceira e última ocasião vem com “A Pele de Vênus”, este um Polanski em sua melhor forma.

Escrita para o teatro por David Ives, “A Pele de Vênus” encontra sua verdadeira origem em um romance escrito pelo alemão Leopold von Sacher-Masoch em 1870, “A Vênus das Peles”. Na realidade, o texto literário e o teatral fazem uma fusão na transposição para o cinema. Os discursos da obra de Sacher-Masoch ainda são fortalecidos na encenação e o roteiro de David Ives e Roman Polanski emitem através dessa apropriação uma série de discursos sarcásticos de uma magnificência jamais vista em obras prévias do franco polonês em que o gênero era a comédia. Como anuncia o prólogo de “A Pele de Vênus”, o resultado que testemunharemos será no mínimo tempestuoso.

Diretor, roteirista e protagonista da nova versão teatral do romance de Sacher-Masoch, Thomas (Mathieu Amalric) está com um deadline apertado e ainda não encontrou aquela que irá viver Wanda von Dunayev, a personagem central que transformará seu admirador em um escravo. Após um dia de testes frustrantes, Thomas está prestes a fechar o teatro que exibirá “A Vênus das Peles” quando surge Vanda (a voluptuosa Emmanuelle Seigner), uma mulher destrambelhada que diz ter perdido o horário em que faria o seu teste.

Thomas não precisa de dois segundos para chegar à conclusão de que Vanda definitivamente não será a sua Wanda, mesmo com a coincidência entre os nomes da aspirante a atriz com a personagem. Após muitas súplicas, Thomas acaba cedendo às insistências da moça, já prevendo a perda de tempo que será observá-la. Eis que uma surpresa acontece e ele vê Wanda se materializando diante de seus olhos. Estaria tudo perfeito se durante a leitura do texto Vanda não se mostrasse astuta ao ponto de contestar algumas passagens e interpretações de “A Vênus das Peles” mantidas por Thomas, que logo entra em parafuso.

A maior graça de “A Pele de Vênus” é a desmitificação de mitos com as menções às inúmeras versões de Vênus. Seja nas pinturas de Botticelli, Ticiano e Kustodiev ou nas esculturas preservadas nos museus de Louvre e Atenas, a Deusa da Beleza e do Amor sempre foi retratada em seu esplendor. Mas resistiria suas virtudes ao tempo? É um questionamento que Polanski transfere para a reversão dos papéis do Homem e da Mulher, para a compreensão da máscara que sustentamos e a verdadeira face que ela acoberta e, especialmente, para a desnudação da arte de fazer cinema.

2 Comments

  1. Poxa, como ainda não tinha ouvido falar neste filme antes, Alex?? Parece sensacional! Gosto de Polanski dirigindo histórias teatrais como essa! Irei assistir, assim que tiver a oportunidade!

    • Kamila, “A Pele de Vênus” estava na Seleção Oficial da penúltima edição do Festival de Cannes e deu a Roman Polanski o prêmio de Melhor Diretor no último César. No entanto, descobri agora que não há uma data definida para o lançamento do filme por aqui, que deveria ter sido em julho. Enfim, é um título tão bom que figura até mesmo em um top 10 do cineasta.

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