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Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013)

Walt nos Bastidores de Mary Poppins | Saving Mr. Banks

Saving Mr. Banks, de John Lee Hancock

Muitos críticos se queixaram com o roteiro de “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”. Escrita por Kelly Marcel e Sue Smith, a história apresentada conta com pitadas bem fantasiosas para ilustrar a vida de P.L. Travers, a autora do romance “Mary Poppins”. Sua amargura incessante é reprisada, mas havia ainda mais nebulosidade em sua relação com Walt Disney, que tentou conquistar a confiança de P.L. Travers para levar para o cinema a sua obra literária máxima.

No entanto, essa produção dirigida por John Lee Hancock não busca se comportar como uma cinebiografia convencional. Ao invés disso, prefere se apropriar da vida de P.L. Travers para discutir algo pouco usual: a desfiguração de um material original no processo de adaptação para uma mídia distinta. E aí vai uma recomendação sincera: se a intenção é criar algum bloqueio com “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” por não ser fiel aos fatos no processo de filmagem de “Mary Poppins”, contente-se somente com a leitura de “Mary Poppins e sua Criadora – A Vida de Pamela Travers”, publicado neste ano pela Editora Prata.

A princípio, o passado e presente de P.L. Travers (Emma Thompson) parecem a materialização de uma fantasia digna de um musical da Disney. Com uma narrativa que se alterna entre os dois tempos, vamos aos poucos descobrindo o que tornou a protagonista uma senhora de mal com a vida ao mesmo tempo em que precisa abrir mão de seu orgulho para finalmente vender os direitos de “Mary Poppins” para Walt Disney (Tom Hanks). Explica-se: P.L. Travers não suporta as afetações das produções do estúdio que deu vida a Mickey e, durante vinte anos, recusou todas as ofertas de Walt para adaptar o seu livro. O problema é que Travers precisa pagar as contas e a venda dos exemplares de “Mary Poppins” caiu ao longo dos anos.

P.L. Travers acaba cedendo, mas com uma série de condições. A principal delas consiste no controle criativo do roteiro, que vai ganhando forma a partir das canções compostas pelos irmãos Sherman (papéis de B.J. Novak e Jason Schwartzman). Porém, antes mesmo de se mostrar totalmente inflexível nesta colaboração para levar “Mary Poppins” ao cinema, Travers rememora a sua infância na Austrália e a sua relação com a própria família. Nos flashbacks, é bem clara a influência que o pai dela (interpretado por Colin Farrell) exerceu sobre a sua vida e carreira como escritora e não demora para sabermos que os tons dourados dessa vida no campo escondem alguns ressentimentos.

A leveza típica dos contos de fadas não fez bem ao cineasta John Lee Hancock ao conceber “Um Sonho Possível“, drama baseado em uma história real que rendeu à Sandra Bullock o Oscar de Melhor Atriz. Já em “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”, este tom dialoga perfeitamente com a construção de P.L. Travers e Walt Disney. A princípio apresentados como figuras reconhecíveis por trás dos personagens agora eternos que criaram, ambos são desmitificados quando o choque entre mentes criativas dá lugar para as suas motivações mais pessoais. Durante este processo, é impossível não visualizar o vigor que Tom Hanks recupera após uma sucessão de erros no cinema. No entanto, é Emma Thompson a energia que impulsiona o filme, demostrando uma queda de resistência gradativa que só amplia nossa identificação com sua personalidade forte. Sua ausência entre as finalistas na categoria de Melhor Atriz na última edição do Oscar é indesculpável.

É importante frisar que “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” nem sempre é certeiro na transição de tempos, que usa e abusa de elementos para estabelecer algumas relações óbvias, como o repúdio da protagonista por peras e a cor vermelha. Um pecado muito pequeno diante da franqueza de P.L. Travers e Walt Disney em usar a arte como uma reparação para o que a vida não tratou de ser mais condescendente – é uma pena que a distribuidora nacional não tenha notado a sensibilidade do título original, “Salvando Mr. Banks”. Mesmo não tendo assistido a “Mary Poppins” uma única vez, não estranhe caso se veja aos prantos ao final do filme.

2 Comments

  1. Achei esse filme delicioso de se assistir, principalmente por causa das atuações de Tom Hanks e Emma Thompson. Achei uma fantasia adorável pela forma como mostra os bastidores de um verdadeiro clássico do cinema e a maneira pela qual a arte e a magia genuína que eram emuladas pelos produtos Disney podem derrubar, até mesmo, os corações mais duros.

  2. Kamila, penso exatamente isso sobre “Saving Mr. Banks”. Talvez seja o filme mais emocionante que vi ao longo deste ano.

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