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Resenha Crítica | À Procura (2014)

À Procura | The Captive

The Captive, de Atom Egoyan

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Atom Egoyan é um cineasta com duas habilidades que o diferenciam de outros colegas. A primeira está em investir em histórias em que um coletivo específico é posto em xeque, seja ele uma comunidade ou um ambiente habitado pelos mesmos indivíduos. A segunda é o processo de construção de suas histórias, que em essência é iniciado somente na ilha de edição. Os mistérios de suas narrativas se descortinam aos poucos e é comum se deparar com uma alternância entre tempos.

Essas duas singularidades estão mais presentes em “À Procura” do que o anterior “Sem Evidências”, mas este seu novo thriller, recebido com vaias ao disputar a Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, mostram um Atom Egoyan muito aquém dos seus melhores momentos. O que gera o resultado desapontador é o roteiro, assinado pelo próprio Agoyan em parceria com o inexperiente David Fraser.

Matthew (Ryan Reynolds) é casado com Tina (Mireille Enos) e com ela teve Cassandra (Peyton Kennedy), uma garotinha de nove anos que é apaixonada por patinação no gelo. Em um dia comum como qualquer outro, Matthew passa em um restaurante para comprar uma torta, deixando Cassandra acomodada dentro do carro. Em questão de apenas dois minutos, Cassandra desaparece sem deixar vestígios.

Oito anos se passam e Cassandra ainda não foi encontrada, o que deteriora o casamento de Matthew e Tina. O detetive Jeffrey (Scott Speedman, em segunda colaboração com Atom Egoyan após “Adoração”), parceiro de Nicole (Rosario Dawson), está convicto de que Matthew está de algum modo ligado ao desaparecimento da própria filha e a paranoia crescente de Tina, que de uma hora para a outra passa a encontrar objetos de Cassandra espalhados nos quartos que limpa de um edifício, só a fazem culpar Matthew ainda mais pela tragédia que os abateram.

Alternando o passado com o presente sem exigir da maquiadora Suzanne Benoit qualquer modificação física em seus intérpretes, Atom Egoyan prova que está desinteressado em fazer um grande mistério ao abrir o jogo no primeiro ato do filme. Sabemos que Cassandra está viva. Mais: a agora adolescente Cassandra está envolvida em uma rede gerenciada por Mika (Kevin Durand) que busca fisgar menores para a prática de atividades sexuais.

Ainda que elimine justamente a chave mais importante de um grande suspense, Atom Egoyan obtém bons momentos de tensão em “À Procura”, especialmente ao dar destaque à angústia de Matthew ou a obstinação de Nicole na busca dos responsáveis pelo desaparecimento de Cassandra. São os únicos pilares que sustentam com algum sucesso uma história com equívocos que se acumulam e que causam um verdadeiro efeito de bola de neve: quanto mais cartas são lançadas, mais estapafúrdias as coisas ficam.

Se não bastasse a caricatura em forma de vilão que Kevin Durand é forçado a incorporar, o seu Mika é um dos personagens mais insipientes do ano, cometendo uma série de deslizes que podem associá-lo imediatamente aos crimes virtuais que realiza. Entre o festival de absurdos que Mika viabiliza, estão as instalações de câmeras que registram a dor de Tina ao rever os pertences de sua filha para saciar uma plateia virtual (o roteiro jamais investiga os tipos por trás dessa curiosidade grotesca) e a promessa de promover um reencontro entre Cassandra e o seu pai Matthew. Artifícios inconvincentes que só banalizam uma premissa desinteressada em problematizar as suas polêmicas.

3 Comments

  1. Sei que você gosta do Atom Egoyan e faz tempo que não assisto a um filme dele, mas gostei muito da premissa desse “À procura”. Tentarei assistir, caso tenha a chance.

    • Kamila, sim, gosto do cinema de Atom Egoyan. Só acho uma pena que ele tenha apresentado os seus filmes mais fracos justamente no ano em que ele esteve mais ativo. De qualquer modo, tenho muitas expectativas com “Remember”, que será lançado no fim deste ano.

  2. […] em seguir os mesmos passos do amigo Atom Egoyan, que neste ano está na Mostra com o thriller “À Procura”. Nascido no Mar Cáspio, próximo à fronteira da Armênia com o Irã, Kodagolian se apropria de […]

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