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Resenha Crítica | Livre (2014)

Livre | Wild

Wild, de Jean-Marc Vallée

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quem já encarou uma trilha, seja ela breve ou longa, conhece a experiência que ela propicia. Mais do que o contato raro com a natureza em um momento em que acompanhamos a urbanização dos ambientes que nos cercam, há também a introspecção. Encaramos a caminhada que fazemos para atingir o destino almejado como um desafio, como um silêncio para dialogarmos com mais liberdade com o nosso próprio interior.

É muito evidente que foi exatamente por isso que Cheryl Strayed deixou tudo temporariamente para trás ao enfrentar uma trilha de aproximadamente 1.770 quilômetros pela Pacific Crest Trail, totalizando mais de três meses de isolamento. Também é claro que Cheryl acumulou muitos pensamentos e acontecimentos para partilhar, o que resultou em “Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço”, livro já publicado no Brasil com o selo da editora Objetiva. Dirigido por Jean-Marc Vallée após “Clube de Compras Dallas“, “Livre” expande a força da história de Cheryl permitindo que sintamos sua exaustão não somente física, mas também emocional.

O recomeço também acontece para Reese Witherspoon. Excelente atriz, Reese se perdeu totalmente ao definir as suas escolhas profissionais tendo como peso uma estatueta do Oscar obtida com o seu trabalho em “Johnny & June”, drama musical produzido há quase dez anos. Excetuando o bom trabalho como coadjuvante em “Amor Bandido”, o brilho obtido a partir de sua participação em “Eleição” tinha se apagado. Sem artificialismo e vaidade ao interpretar Cheryl, Reese Witherspoon merece voltar ao circuito de premiações.

Na primeira cena de “Livre”, nos deparamos com uma Cheryl no meio de sua jornada e diante de uma situação que pode fazê-la abrir mão de tudo. A seguir, os fragmentos que Martin Pensa e o próprio Jean-Marc Vallée organizam buscam decifrar paulatinamente esta jovem, evidentemente atingida por uma perda drástica que a fez assumir uma série de impulsos inadequados.

Entre cada percalço da trilha, Cheryl rememora um passado presente marcado pela relação com a mãe (a extraordinária Laura Dern, uma atriz que faz valer cada segundo em que aparece), os desentendimentos com o ex-marido (Thomas Sadoski), uma infância de violência com o pai (Jason Newell) e o vício por drogas pesadas em uma fase longa de desolação. Tudo apresentado com uma sintonia pouco vista em narrativas que se arriscam em estabelecer dois tempos para sincronizá-los.

Evitando o erro visto em filmes similares como “Na Natureza Selvagem”, em que o protagonista é involuntariamente reduzido com o realce exacerbado conferido aos personagens secundários, “Livre” se mantém concentrado totalmente em Cheryl, o que garante força à aventura que ela mergulha. Há também o trabalho musical, com canções selecionadas a dedo pelo roteirista Nick Hornby (britânico mais conhecido como o autor dos livros “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”) para embalar os passos de Cheryl, firmes o suficiente para tornar palpáveis as novas possibilidades com o fim de um percurso existencial.

3 Comments

  1. Estou muito curiosa em relação a esse filme, principalmente por causa dos elogios que têm sido dados à Reese Witherspoon. Eu gosto muito dela como atriz, apesar de muita gente torcer o nariz para ela.

    • Kamila, Reese Witherspoon fez uma das minhas personagens favoritas do cinema (Tracy Flick) e a considero muito talentosa. No entanto, não há como negar que ela se perdeu drasticamente desde que “Johnny and June”. Fico feliz que ela tenha se reencontrado e “Livre” a traz em uma das melhores interpretações recentes do cinema.

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