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Resenha Crítica | Leviatã (2014)

Leviatã | Leviafan

Leviafan, de Andrey Zvyagintsev

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Como cidadãos comuns inseridos em uma sociedade capitalista, sempre temos a sensação de que há uma força maior determinando o nosso destino.  Há aqueles que encontram nas circunstâncias a justificativa para a classe social que estão inseridos, para o local que habitam e para a profissão que exercem. Outros conferem a responsabilidade em agentes (políticos?) que detêm o poder para operam algumas injustiças. Essa é uma questão bem ilustrada por Andrey Zvyagintsev nas sequências inicial e final de “Leviatã”: as panorâmicas embaladas pela música de Philip Glass (extraída da ópera “Akhnaten”) sugerem que há algo muito grandioso nos manipulando como marionetes.

Personagem central de “Leviatã”, Kolia (Alexei Serebriakov) é um mecânico casado com a jovem Lilya (Elena Lyadova) e pai do adolescente Roma (Sergey Pokhodaev), fruto de um relacionamento com outra mulher. Sua vida comum é transformada em pesadelo a partir do instante que o prefeito Vadim (Madyanov) demostra interesse pela sua propriedade. Embora modesta, ela está situada em uma área com vista privilegiada, o que faz Kolia temer que a posse seja repassada pela justiça para Vadim. A solução parece se apresentar através de Dimitri (Vladimir Vdovichenkov), um amigo de longa data de Kolia no exército que atuará como seu advogado.

Para compreender o perigo que há na luta de um indivíduo comum contra uma autoridade cheio de conexões nebulosas, Andrey Zvyagintsev se apropria de dois elementos, um narrativo e outro visual. Premiado em Cannes, o roteiro escrito por Zvyagintsev em parceria com Oleg Negin é contaminado por um humor quase perverso que envolve situações constrangedoras de embriaguez, adultério e falsas aparências. Já através das imagens, Zvyagintsev referencia o mostro medieval (e, consequentemente, a cobiça da qual ele é materializado) que lhe serve de título com carcaças de animais e cacos de objetos visualizados em todos os cantos.

Um triunfo em todos os quesitos, “Leviatã” só fraqueja na meia hora final ao ter o contexto religioso da narrativa, até então somente sugerido com maestria, tomar forma ao ponto de comprometer a fluência dos acontecimentos. Embora uma decisão que conte negativamente para o resultado final, Andrey Zvyagintsev ainda assim mantém a potência de uma história sobre a disparidade entre homens e as consequências cruas e irreversíveis para aqueles que se rebelam estando presentes no lado menos privilegiado do conflito.

2 Comments

  1. Swahili Vidal Swahili Vidal

    Muito bom o filme! E eu senti muuito na fala do sacerdote uma msg pros Estados Unidos! Pode ate ser uma viagem minha, mas ele falando que “não se pode pregar a liberdade através da destruição das fundações de outros.” Tem um recadinho ai pra hipocrisia da atuação norte americana no mundo.

    • Vidal, é inevitável as associações, mas acredito que o cineasta quis concentrar os seus comentários em sua pátria. Concordei até mesmo com amigos que afirmam que a Rússia foi meio “bizarra” em viabilizar um filme que condena abertamente as suas instituições mais poderosas, como a política e a religiosa.

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