Resenha Crítica | Interestelar (2014)

Interestelar | Interstellar

Interstellar, de Christopher Nolan

Christopher Nolan é um cineasta com uma carreira iniciada através de projetos de uma pequenez que jamais ofuscava as suas grandes ambições. Com a realização da trilogia “Batman” e a consagração com “A Origem“, o inglês foi considerado uma espécie de pantaleão ao promover em Hollywood uma ousadia cada vez mais rara de ser viabilizada: a materialização de um argumento original com um orçamento bem inchado para cobrir todos os seus caprichos.

O problema em se atingir este feito é que há a constatação automática de que há algo genial a ser visto, mesmo que a obra em questão tenha a sua própria substância comprometida por uma série de escolhas inconsequentes que conferem uma roupagem desastrosa em elementos consagrados. Dar uma olhar “realista” (muitas aspas, por favor) em um herói notório pelo universo fantástico que habita e tornar extremamente racional um campo de sonhos é o mesmo que mexer em vespeiro.

Em “Interestelar”, Christopher Nolan, com o suporte de seu irmão Jonathan Nolan no roteiro, encontra um outro modo de alçar voos mais altos do que sua própria imaginação é capaz de suportar. Isso fica patente já na sequência que abre os créditos de “Interestelar”, em que idosos relatam como eram os tempos em que a narrativa irá cobrir a seguir. É dito que uma tempestade de areia tornou a Terra um planeta incapaz de continuar sendo habitado enquanto takes mostram o quanto isso devasta os nossos recursos naturais. Claro que outros takes de pratos virados para baixo em uma mesa coberta de areia serão exibidos enquanto uma senhora diz exatamente como lidava no lar com as adversidades provocadas pelo fenômeno. Se um diretor se permite a ilustrar didaticamente o que é dito, como se encantar com as possibilidades de sua ficção científica?

Após descobrir com a sua filha Murph (Mackenzie Foy) uma estação secreta da NASA, Cooper (Matthew McConaughey), antes um astronauta e agora um viúvo enclausurado em uma vida no campo, é convocado para liderar uma expedição espacial em busca de um planeta que possa ser habitado pelos humanos.

Encarar o desconhecido contém os seus riscos e as chances de Cooper, Brand (Anne Hathaway), Doyle (Wes Bentley) e Romilly (David Gyasi) – além de um robô com o pior design do cinema chamado TARS (voz de Bill Irwin) – retornarem à Terra com boas notícias são mínimas, especialmente pela busca incluir um desembarque no planeta Miller, cuja distorção de tempo faz com a cada uma hora de permanência se converta em sete anos na Terra. Claro que a trupe se comporta do modo mais desastroso possível, o que resulta na morte de um deles e a transformação de Mackenzie Foy em Jessica Chastain – reparem que Michael Caine, pai da personagem de Anne Hathaway, não é submetido a qualquer maquiagem para registrar a passagem do tempo em sua face.

Se não bastasse contar com um amparo digno de pesquisa no Wikipédia sobre questões astrofísicas com a intenção de desenvolver uma longa resolução que se conecta a inúmeros episódios místicos prévios, “Interestelar” ainda se envolve com temas como amor e família para obter a mesma relevância diante de outras obras já consagradas no gênero. O problema é que absolutamente nada funciona.

Como experiência sensorial, o filme passa vergonha diante do recente “Gravidade“, produção que marca uma verdadeira revolução no modo como o cinema se abre para ambientes além da Terra. Com as pretensões de um épico disposto a arrebatar plateias, “Interestelar” é arruinado com a inabilidade de Christopher Nolan em construir figuras humanas tridimensionais. Basta direcionar as atenções para Brand e Murph, as duas mulheres da história que passam toda a existência amparadas pela ausência ou influência da figura paterna e nada mais.

Ainda diante dessa perspectiva, não há como não citar a aparição surpresa de Matt Damon, uma espécie de versão masculina de Miranda (Marion Cotillard), a personagem constrangedora de “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge“. No entanto, é a conclusão a responsável por invalidar uma espécie de moral então construída sem sucesso, trazendo um Cooper ignorando a sua própria continuidade que tanto o motivava a retornar à Terra. A bela trilha sonora de Hans Zimmer com a sua utilização de órgão de tubo faz jus ao sentimento lúgubre deixado por “Interestelar”.

  1. Fazia tempo que não concordávamos tanto! Desde “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” Christopher Nolan está numa derrocada pretensiosa assustadora. Este “Interestelar” foi o auge do descontrole dele. Confesso que, durante várias partes do filme, me vi completamente irritado com a trama desnecessariamente embolada. Só curti mesmo a trilha do Hans Zimmer porque, de resto, só vi elementos que colocam “Interestelar” como o pior filme já realizado pelo diretor.

  2. Sei que você não gosta de “Interestelar” pelos seus comentários no Twitter e, agora, por causa desse texto muito bem escrito. Apesar disso, me permita discordar um pouco de você. Entendo a comparação feita com “Gravidade”, mas acho que esses dois filmes são bem diferentes. Christopher Nolan, aqui, tenta falar mais sobre a relação do homem com as dimensões de tempo e espaço. Tem muitos conceitos envolvidos nisso. Enquanto, “Gravidade” é mais sobre a questão da relação entre o homem e o espaço sideral. No mais, concordamos em relação à maravilhosa trilha de Hans Zimmer, que eu espero tenha um reconhecimento no Oscar, já que tem sido solenemente ignorada na atual temporada de premiações.

    • Kamila, eu não faço uma comparação com “Gravidade” como se identificasse que os filmes se movessem através de premissas similares. Acredito que, após o filme do Cuarón, o cinema precisa começar a enxergar o espaço com outros olhos. Portanto, acho um absurdo que Nolan faça uma viagem além de nosso alcance sem provocar qualquer imersão.

  3. Não tem jeito, não dá para ser imparcial ao pensar numa crítica. Às vezes porque não se gosta do diretor, outra porque não se gosta de certo gênero de filme.
    Mas isso é da característica humana; porém, da mesma forma que um diretor está sujeito a erros e críticas, os críticos também o estão.
    Veja só, você diz que, muitas vezes Nolan explica em palavras o que está sendo claramente mostrado em tela, dizendo ser desnecessário, didático demais, supérfluo. Ok, talvez fosse, mas isso não é necessariamente algo ruim para o filme, e sim um velho ou velha tentando contar o dia-a-dia, assim como é natural dos velhos gostarem de contar suas histórias.
    Por outro lado, critica o fato de, no final, o protagonista simplesmente ignorar sua vontade de voltar à Terra para estar com a família, para ir buscar a Amélia. Perceba que, neste caso, Nolan usou justamente o recurso que você pediu: mostrou em imagem, e não explicou. Ora, basta pensar, estar na pele dele, para perceber que sua filha já era uma idosa, com família própria, e que já o havia perdoado, e dado carta branca para continuar sua busca pela salvação da humanidade, ou então, para encontrar uma possível parceira (Amélia).
    Nolan deixa muitos questionamentos em seus filmes. Perceba que suas histórias nunca acabam, e justamente as lacunas que os críticos ressaltam, são para serem completadas justamente pela reflexão das pessoas, e não necessariamente pela falta de explicação no filme (já comentado acima).

    • Cássio, o debate sobre imparcialidade pode durar dias, pois ela envolve a sensibilidade do crítico diante do que vê, os valores que privados que carrega, as preferências etc. Eu não posso negar que vi “Interestelar” com muitos receios, mas eu irei justificá-los: acredito que Christopher Nolan perdeu a essência de outrora e só está piorando a cada novo filme. Eu tento compreender quem o aprecia e acho que há algum mérito no fato dele ter conduzido dois blockbusters concebidos a partir de um argumento original, sendo estes “A Origem” e “Interestelar”. Mas são filmes que não rendem porque Nolan não confia nos universos que arquiteta e incorre a dois erros graves: o didatismo e a descaracterização. “Interestelar” não funciona porque Nolan ambiciona contar uma história humana que ultrapassa as fronteiras do universo e arruína tudo pela construção oca de personagens. Ora, é inacreditável que Cooper não somente dê atenção a um de seus dois filhos, como também há o fato dele ignorar toda a sua continuidade para resgatar a personagem de Anne Hathaway. Como desenhar as possibilidades que são abertas com a conclusão se coisas tão básicas não são administradas a contento? Enfim, minha intenção nunca foi de carimbar uma opinião definitiva sobre um filme. Em meu texto, busco identificar pontos que incitem um debate, a refletir sobre os temas propostos sem a preocupação em me ater a cotações e a julgamentos de certo e errado.

      Um abraço! :-)

      • Bom amigo, não me leve pelo lado pessoal, só estarei expressando minha opinião sobre o filme e sobre sua crítica. As cenas iniciais que rodam mostrando e relatando o que acontecia foram muito bem colocadas e inteligentes, pois só vamos à compreender no último momento do filme.

        Cooper é um personagem fantástico que a cada momento nos surpreende um pouco mais, seus motivos justos e humanos são perfeitos e tocantes. Ele e sua filha são os personagens com mais destaques realmente, Matt foi uma peça fundamental para o enredo e confesso que os demais ficaram um pouco sem brilho. A relação com o filho em particular realmente foi pouco mostrado, um pouco pelo fato do tamanho do filme. Quanto aos robôs (há mais de um) ele é fantástico. Você não deve acompanhar robótica, mas ele é extremamente avançado e seu designe é versátil e cumpre seu papel, afinal, ele não foi feito para ser admirado como uma obra de arte mas sim um auxiliador. E seu avanço é condizente com o tempo em que o filme se passa.

        Por fim, Interestelar, é fantástico em um todo. Toda Ciência por traz de suas teorias são impecáveis, e realmente deixa alguns pontos imaginativos e interpretativos para estimular o público, tanto que se fosse explicar tudo e mostrar cada detalhe o filme seria muito mais extenso do que já foi e.e

        P.S: Quanto ao filme mencionado, Gravidade, ele é cientificamente uma piada. Chega a ser engraçado, a parte física sobre o espaço e sobre a própria gravidade parece ter sido escrita por uma criança do fundamental. Nada nele faz sentido (físico). Amplie um pouco mais seus horizontes científicos quando for avaliar filmes com estes temas e conceitos.

        De resto, um abraço.

  4. Não sou crítico de cinema, mas assisti este filme ontem e achei tremendamente fascinante. Como bom rapaz de exatas, o filme cumpriu bem o papel de “mexer” com minha mente em relação a viagens espaciais. Não sei o que comentar sobre o drama inserido no mesmo, não sei se devo cobrar mais profundidade neste quesito visto que para minha pessoa (fascinada por universo e assunto relevantes) o mostrado no aspecto “espaço” cumpriu seu papel. Se de maneira verossímil ou não, minha imaginação foi a mil. Curti muito.

  5. Filme para pensar um pouquinho é PROMETHEUS, e teremos o segundo.
    GRAVIDADE eu gostei muito , fomos feitos para viver na terra, mas não quer dizer que não se tente viver fora dela, mas o ambiente nosso é este daqui. Pra mim o recado é o mesmo em todos estes filmes, que se busque origem, que se busque novos planetas e tal, mas a preocupação em cuidar deste ainda não é o foco de nenhum destes filmes e eu acho isso muito triste.

  6. Ao contrário do que muitos dizem sobre o filme ser ruim e respeito as opiniões, o filme é inteiramente brilhante , falando de descrença , egoísmo e esperança .Nolan com certeza se superou , e ainda buscando alguns auxílios em 2001 como o robô Tars , foi de uma magnificência surreal , buscando sair um pouco da fé e amor e focando mas no lado científico , da para perceber totalmente sua paixão por ciência e quem não ama uma coisa difícil de compreender ? Você tem que assistir e pensar bem sobre tudo que acontece e ir ligando os fatos liga o começo do filme com o final q você se surprienderia incrivelmente com tudo q deixou passar , não deixando a desejar em efeitos especias Nolan juntamente com seu irmão foram além do que se podia imaginar , fugindo do 3D e das coisas atuais para meio de gravação ele se superou com a cenas do espaço e as falas muito bem postas , em certas cenas do filme quando você olha o Mathew no thesseract você não precisa nem que ele fale nada pois sua expressão diz que a coisa está realmente seria , você tem que pensar que existe os humanos do futuro que fizeram isso ser capaz , que mesmo podendo ter perdido de primeira , foram cuidadoso para criar os buracos de minhoca para fácil ascesso e mostrar que a questão de tudo seria a gravidade que transpassa as dimensões e por aí vai .
    Só acho que deveríamos pensar um pouco antes de julgar como lixo , não sou nenhuma nerd viciada em ciência e códigos morse e binário , mas é sempre divertido .

  7. Olá…..
    O filme é maravilhoso. …assisti novamente recentemente e fui lá Internet buscar outros comentarios sobre o filme. ….a cada nova olhada o filme tem algo novo a dizer….um clássico. ……achei sua análise um pouco tosca. ..cientificamente o filme é espetacular….qualquer pesquisa rasa comprovara o que digo(o robô,o buraco de minhoca,o mundo da 5 dimensão )tudo muito bem pesquisado……apesar de tudo isso o forte do filme continua sendo a relação do homem com o desconhecido…o filme Contato seja o lado b de interestelar, não tão bom quanto…..todos os filmes tem suas dificuldades…porém achei seu comentário um pouco viciado……vc parte da idéia que o cineasta não é bom como todos dizem……ele é bom……gostei que vc fez referência ao filme O grande truque……outro filme que como interestelar tem sempre algo a dizer a cada nova olhada…..Ana.