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Resenha Crítica | Grandes Olhos (2014)

Grandes Olhos | Big Eyes

Big Eyes, de Tim Burton

A história de Margaret Keane poderia muito bem se encaixar naquele padrão de artistas são reconhecidos tardiamente após uma trajetória brilhante que passou totalmente despercebida ou não valorizada como deveria. Com uma filha pequena, Margaret decidiu fugir do marido abusivo para reconstruir sua vida em outro lugar, levando consigo um portfólio com os seus belos retratos de crianças com olhos negros e ampliados. No entanto, o sucesso de seu trabalho veio de modo inacreditável.

Estamos em uma época em que a sociedade ainda encara a mulher como a dona do lar, com ambições que devem ser preteridas para centrar as suas atenções no bem-estar do marido e dos filhos concebidos com a união. Portanto, é compreensível que Margaret encontre o seu porto seguro em Walter Keane (Christoph Waltz) e se deixe levar pelo seu desejo de ser um pintor celebrado mundialmente, mesmo que isso a faça abrir mão da própria autoria para que Walter leve o crédito pelo seu trabalho.

Ainda que as telas de Margaret confiram as características da pintura expressionista, há elementos que vão ao encontro da estética gótica preservada por Tim Burton em sua filmografia. Portanto, a pintora e o cineasta pareciam formar uma dupla perfeita para dar vida à “Grandes Olhos”, um drama biográfico que se concentra exclusivamente nos conflitos entre Margaret e Walter até o momento em que a polêmica vem a público.

As expectativas denunciavam que Tim Burton voltaria a realizar um filme à lá “Ed Wood”, uma obra que o fez abrir mão de universos fantásticos para conduzir uma história real com encantos mais palpáveis. É admirável a escolha de Tim Burton em sair de sua zona de conforto e oferecer um bom acabamento para uma produção certamente viabilizada com dificuldades (o orçamento foi de apenas 10 milhões de dólares). No entanto, o resultado prova que ele não foi a escolha certa para dar vida ao bom roteiro escrito pela dupla Larry Karaszewski e Scott Alexander.

Algumas assinaturas de Burton são certeiras, como as cenas em que Margaret vê as pessoas ao seu redor com olhares reprovadores como a de suas crianças melancólicas. Outras são compreensíveis, mas não funcionam. Christoph Waltz é uma delas e os danos quase arruínam “Grandes Olhos”, pois o ator extrapola todos os tons ao se converter em uma caricatura nada sedutora ou amedrontadora. O prejuízo dessa presença inoportuna só não é irreversível porque Amy Adams garante a delicadeza exata para viver Margaret, um modelo que atua como um reflexo crível da mulher de sua época.

2 Comments

  1. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Esse filme prometia tanto… Uma pena que parece que passou completamente despercebido, especialmente na temporada de premiações. De toda maneira, quero muito conferir, pela história e pelos nomes envolvidos no longa.

    • Kamila, pois é. Ao contrário da maioria, gostei do que Tim Burton andou produzindo em tempos mais recentes, especialmente “Alice no País das Maravilhas”. No entanto, aguardava pelo seu retorno a narrativas, digamos, mais terrenas. Nem sempre as suas excentricidades valorizam o bom roteiro de “Grandes Olhos”. De qualquer modo, Amy Adams segue encantadora como sempre, ela faz uma Margaret que nos fisga a cada segundo.

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