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Yves Saint Laurent (2014) Vs. Saint Laurent (2014)

Yves Saint Laurent  Vs. Saint Laurent

Yves Saint Laurent, de Jalil Lespert
Saint Laurent, de Bertrand Bonello

Vítima de um câncer cerebral, o notável estilista Yves Saint Laurent deixou como herança não somente um império que revolucionou a moda, como também um histórico de vida cheio de capítulos polêmicos. Embora tenha morrido em 2008 aos 71 anos, seis anos se passaram até que Yves Saint Laurent se transformasse em um personagem de interesse para o cinema, que no ano passado o homenageou com duas produções: “Yves Saint Laurent”, de Jalil Lespert, e “Saint Laurent”, de Bertrand Bonello.

É verdade que o estilista tinha recebido em 2010 um documentário pelas mãos de Pierre Thoretton, “O Louco Amor de Yves Saint Laurent”. Entretanto, é a ficção que costuma garantir um registro com um alcance mais amplo. Ambos os filmes foram rodados quase simultaneamente, mas Jalil Lespert tomou a dianteira ao lançar “Yves Saint Laurent” antes de “Saint Laurent”. O que determinou a vitória de Lespert nesta disputa foi o fato de Bonello fazer uma cinebiografia não autorizada, o que rendeu uma produção conturbada com as constantes ameaças de processo emitidas por Pierre Bergé, o braço direito de Yves Saint Laurent nos negócios e com quem teve um caso amoroso.

Yves Saint LaurentPor falar em Pierre Bergé, Lespert também contou com o privilégio de trazer para a sua produção as versões verdadeiras dos figurinos assinados por Yves Saint Laurent, o que trouxe apuros para Anaïs Romand, que teve que desenhar para “Saint Laurent” peças que fizessem jus à opulência das coleções que marcaram a alta-costura. A vantagem é evidente na tela, pois “Yves Saint Laurent” mergulha com mais intensidade neste universo dos desfiles de moda e o processo trabalhoso de concepção de roupas sofisticadas, algo que “Saint Laurent” só dá uma pincelada em seu primeiro ato.

Os “concorrentes” também surpreendem ao darem perspectivas distintas sobre o mesmo personagem. No filme de Jalil Lespert, o pecado está ao trazer uma narrativa basicamente episódica como um modo de flagrar todas as facetas do estilista, ficando clara a instabilidade entre as cenas que trazem um Yves Saint Laurent com personalidades destoantes. Bertrand Bonello, que tem a seu favor o tempo (150 minutos) e a experiência por trás das câmeras em bons títulos como “O Pornógrafo” e “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância”, também não promove muito interesse na construção do protagonista, carregando “Saint Laurent” de vícios que só dispersam o espectador, como o ponto da cena sempre demorando a se revelar.

Em termos de elenco, “Yves Saint Laurent” outra vez se mostra superior a “Saint Laurent”. Ainda que a estrutura comprometa a evolução do personagem, Pierre Niney faz um trabalho delicado, iniciando o filme com uma inibição que sugere as perturbações ainda provocadas por uma juventude não relatada como deveria (Saint Laurent passou um período em um sanatório após uma vivência traumática no exército francês) e passando para as fases posteriores com a liberdade vinda com a descoberta de sua verdadeira identidade e do sucesso como estilista. Ainda melhor é Guillaume Gallienne na pele de Pierre Bergé, se livrando de todas as amarras e afetações testemunhadas no terrível “Eu, Mamãe e os Meninos”.

Saint LaurentEm “Saint Laurent”, o refinamento do elenco não foi aproveitado na encenação. As participações especiais de Valeria Bruni Tedeschi e Brady Corbet não provocam uma forte impressão e os excelentes Léa Seydoux e Jérémie Renier, aqui responsável por dar vida a Bergé, são mal aproveitados. E se não bastasse Louis Garrel mais uma vez interpretar Louis Garrel, Gaspard Ulliel escorrega ao quase caricaturar Yves Saint Laurent. As belas feições do ator contemplam uma inconveniente cicatriz no rosto, na altura da bochecha esquerda, o que faz com que algumas expressões se assemelhem a caretas dignas de um sociopata.

No fim das contas, podemos dizer que as duas tentativas não foram suficientes para dar a Yves Saint Laurent o filme que ele merece. Na comparação, “Yves Saint Laurent” é o melhor, mas o seu resultado final é apenas razoável por fazer um desenho incompleto do estilista. Já “Saint Laurent” foi lançado com a promessa de mostrar uma versão sem censura dessa figura real. O que se vê é algo similar a um banho de água fria, uma vez que as expectativas criadas pelo material promocional não são cumpridas. Bertrand Bonello prometeu carícias, luxúria e entrega aos instintos mais ardentes e o que oferece é uma sexualidade insípida que configura “Saint Laurent” como um ponto baixo em sua carreira.

2 Comments

  1. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Não assisti a nenhum dos dois filmes, mas, desde já, te parabenizo, Alex, pela excelente ideia dessa coluna! Comparar dois filmes sobre um mesmo assunto é sensacional!

  2. Só conferi “Yves Saint Laurent” e, apesar de gostar da interpretação do Pierre Niney e dos figurinos, acho que o filme não dá conta do personagem… Por isso, minha disposição para ver a versão estrelada pelo Gaspard Ulliel não é lá muito grande.

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