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Entrevista com Anne Fontaine, diretora de “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte”

Anne Fontaine

Nos últimos três anos, participei de muitas coletivas e bate-papos, procurando em uma sala cheia de jornalistas ou de espectadores a brecha para fazer alguma pergunta com base nas impressões imediatas extraídas de um filme. Foi um preparo extenso para perder a inibição, saber sobre a importância da pesquisa e de pensar fora da caixinha para conseguir conceber algumas boas questões.

A oportunidade de debutar em uma individual veio em grande estilo. Pude entrevistar rapidamente a diretora e roteirista Anne Fontaine durante a sua passagem no Brasil para promover “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte”, produção que chega hoje ao circuito comercial após integrar a programação do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano.

Extremamente elegante e receptiva, a cineasta de 56 anos interage muito bem em português, idioma que selecionou para responder a três perguntas não somente sobre “Gemma Bovery”, mas também sobre o seu cinema como um todo e a experiência em ter uma obra refilmada.

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Embora você tenha uma filmografia diversificada, sempre identifiquei um elo entre todas as suas obras, uma obsessão. Mesmo com vidas bem satisfatórias, os seus personagens parecem inclinados a cometer algum erro. O que você diria sobre essa constante em seus filmes?

São personagens com uma vida construída, mas não satisfeitos com ela. É como se eles aspirassem a algo mais forte, intenso. Há assim um “encontro” que modificará as coisas, a vida, algo que está em “Amor sem Pecado”, em “A Garota de Mônaco” e também em “Gemma Bovery”, embora este, acima de tudo, seja uma comédia. Há essa ideia de que o destino é uma coisa que não se pode controlar, algo que de fato é uma obsessão em meus filmes. Essa busca por algo que não está sob o nosso controle.

Fabrice Luchini vive um personagem que sempre observa os passos de Gemma e que parece desejar interferir quando ela comete o adultério, o erro. São momentos engraçados e Gemma se mostra uma reprise de Madame Bovary. Martin Joubert seria o seu alterego?

A imaginação é mais forte que a realidade para Martin Joubert. O que gosto neste personagem é que ele é como um diretor de cinema. Tento conferir um perfil de artista a um sujeito feito justamente por um, o Fabrice Luchini. Como diretora e roteirista, faço essa aproximação com este personagem manipulando o que acontece, inclusive interferindo em seus sonhos, ainda que ele tenha uma vida feita, tranquila ao lado de sua mulher, Wizzy. Eu o considero como um irmão de Woody Allen.

“Gemma Bovery” é uma adaptação do romance homônimo de Posy Simmonds, mas também se comporta como uma refilmagem moderna de “Madame Bovary”. O seu “Natalie X” foi refilmado por Atom Egoyan como “O Preço da Traição”. Como se sentiu ao ter o seu trabalho revisto por outra pessoa?

Eu o vi, estava muito curiosa para assisti-lo. É muito bem feito, Julianne Moore é extraordinária, todos os atores são extraordinários. Mas uma coisa que me incomoda é o relacionamento sexual entre as personagens. Acredito que ele era mais bonito e forte quando era algo sugerido, nunca consumado. Mas é bom e eu adoro Julianne Moore, ela é uma grande atriz e eu já pude vê-la também no teatro.

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