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Entrevista com Anna Muylaert, diretora de “Que Horas Ela Volta?”

Fonte: Farrucini
Fonte: Farrucini

Embora “Que Horas Ela Volta?” tenha a sua estreia já confirmada para esta quinta-feira, 27 de agosto, o filme desembarca no circuito comercial do país com uma carreira consolidada, inclusive com passagens premiadas em festivais internacionais como Berlim e Sundance. É um grande momento para a diretora e roteirista Anna Muylaert, dona de uma filmografia impecável que inclui “Durval Discos”, “É Proibido Fumar” e “Chamada a Cobrar“.

Paulistana, Anna Muylaert atendeu ao nosso pedido para responder algumas perguntas sobre “Que Horas Ela Volta?”. São revelados alguns detalhes sobre a produção, como a dinâmica colaborativa que desenvolve junto ao elenco na construção do roteiro e como o seu relato reflete a nossa contemporaneidade.

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“Que Horas Ela Volta?” chega ao Brasil com uma reputação moldada por reações bem positivas vindas do público e da crítica de festivais como Berlim e Sundance. O que refletiu sobre as impressões estrangeiras a partir da realidade brasileira que encenou?

Quando chegamos em Sundance tinha medo até que não entendessem a história. No entanto, não foi isso o  que aconteceu.  Embora no começo eles mostrem curiosidade para saber mais sobre essa estrutura brasileira que remonta ao escravagismo em pleno século XXI, logo as discussões se ampliam para relações de poder – o que acontece em todas as sociedades, talvez não no Xingu.

E como o filme trata-se de uma história familiar e ao mesmo tempo é uma crítica severa a atitudes segregacionistas, ele leva também a múltiplas discussões que, creio, encantam os estrangeiros.

“Que Horas Ela Volta?” discute a discrepância entre duas classes sociais a partir de uma vertente pouco explorada na ficção: o pertencimento, a proibição de adentrar a propriedade de alguém com elevado poder aquisitivo. Vê a mansão, o ambiente central do filme, como um espelho do cenário atual de nosso país?

Sim com certeza. Creio que neste filme discute-se moradia, o espaço e até a função da arquitetura: o andar superior, o andar inferior, o quarto de hóspede, a área de serviço, a área de lazer…  Tudo isso espelha zonas de convívio social, alguma permitidas para alguns e proibidas para outros – como a piscina – e outras permitidas para todos, mas frequentadas apenas por alguns  – como a lavanderia, por exemplo.

Enquanto promovia “Quando Eu Era Vivo” no ano passado, Lourenço Mutarelli admitiu que se sente a vontade como ator somente com você. Segundo ele, você propõe uma dinâmica no set em que todos os intérpretes estão livres para acrescentar camadas ao seu roteiro. Como obtém essa harmonia? Há uma preparação prévia ou tudo acontece naturalmente já nas filmagens?

Sim, esta é minha proposta. Convidar o ator para uma co-criação. Não estou ali dando ordens, apenas sou parceira numa pesquisa de hipóteses. O Lourenço em particular – assim como a Regina Casé – é um sujeito que escreve, é um autor, então em vez de dar ordens a ele eu espero entusiasmada pelo que ele vai me trazer.  Eu não gosto de estar com tudo previsto, eu gosto de me surpreender e de ser surpreendida.

Quanto a preparação, sim, há ensaios – mas eles servem mais para facilitar ao ator um campo de pesquisa e de possibilidades, do que exatamente para marcar cenas e prever comportamentos na hora de rodar.

Os seus longas têm protagonistas adultos, mas você apresenta em suas credenciais uma vasta experiência com o universo juvenil, a exemplo do seriado “Castelo Rá-Tim-Bum” e do livro “No Rabo do Cometa”. Como foi convencer Michel Joelsas de voltar às telas? E sobre e a escolha de Camila Márdila, que estreia no cinema? Enxerga na juventude de hoje a oportunidade de quebrar os paradigmas enraizados em mães como Bárbara e Val?

Michel foi fácil de ser convencido. Convidamos, ele leu o roteiro e aceitou. A Camila surgiu no filme através de testes de elenco e se destacou por sua inteligente compreensão do que a Jessica tinha que ser.

Acredito sim que a juventude é a base para uma mudança no futuro, este filme fala desta utopia. Estamos no século XXI e ainda agimos como se estivéssemos no século XIX. Os jovens tem mais condição de fazer esse upgrade do que aqueles cujas raízes escravagistas, machistas, homofóbicas, racistas, classistas etc estejam mais aprofundadas.

“Que Horas Ela Volta?” já vem recebendo pela audiência alguns paralelos com “Casa Grande”. Assistiu ao filme de Fellipe Barbosa? Concorda com as associações? Acredita que o cinema brasileiro continuará viabilizando um discurso tão em pauta quanto a dos universos distintos (mas próximos) que habitam uma empregada doméstica e a sua patroa?

Já li sobre esses paralelos, mas não concordo. Acho que o filme dele começa com um olhar crítico e no meio do caminho apega-se a um protagonista burguês que tira as vendas do palácio e percebe as mazelas sociais do seu país, antes ocultas pelo “sucrilhos no prato”.  O meu filme é outra coisa. É uma historia contada do ponto de vista da cozinha e cujas personagens femininas estão vivendo suas próprias vidas.  A cena final de “Casa Grande” me incomoda profundamente porque essa solução de “comer a empregada”, para mim, além de machista é retrógrada – é mais velha que José de Alencar.

Quanto ao futuro do cinema brasileiro, não sei. Acho que ainda daria para fazer vários filmes de empregada e patroa em diversas situações. Mas não tenho como saber se ainda vão tocar nisso ou não.

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