Resenha Crítica | Decisão de Risco (2015)

Eye in the Sky, the Gavin Hood

Os sucessos de “A Hora Mais Escura” e “Homeland” parecem ter inaugurado um novo momento para os ditos “filmes/seriados de guerra”. Os embates armados seguem usando como palco os territórios ocupados por soltados e civis. No entanto, há aqueles que são resolvidos à distância, em salas com acesso restrito em que ações são tomadas por um sem número de autoridades que acreditam deter o “olhar de Deus”.

Esse momento em que a tecnologia se sobrepõe à ação é enfatizado no título original de “Decisão de Risco” – olho no céu. No filme, o Quênia é observado de cima na operação liderada pela Coronel Katherine Powell (Helen Mirren), que acredita finalmente ter obtido a pista correta sobre o local em que estão escondidos três dos terroristas mais procurados no leste africano.

Antes uma missão de captura, Katherine insiste em uma intervenção que os levariam à morte imediata, uma vez que a câmera em formato de besouro que sobrevoa uma residência observa o trio se preparando para uma explosão em um centro comercial. Porém, os tempos são outros e qualquer procedimento que resulte na morte de inocentes não sacode somente a opinião pública, como também a relação amigável entre países.

Portanto, até que a ordem de Katherine para que uma bomba seja jogada no alvo por Steve (Aaron Paul) e Carrie (Phoebe Fox) – a dupla comanda em uma cabine privada o drone preparado para finalizar a operação – muitas pessoas serão consultadas, do Tenente General Frank Benson (Alan Rickman, em seu último papel no cinema) ao Secretário de Relações Exteriores James Willett (Iain Glen). No pivô, está a pequena Alia (a graciosa Aisha Takow), que está vendendo pães nos arredores do alvo e cuja morte poderia ser provocada com a explosão.

Nascido na África do Sul, o diretor Gavin Hood passou a se posicionar no radar de Hollywood ao vencer há 10 anos o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Infância Roubada”. Desde então, parece ter encarado grandes produções que o colocavam na desconfortável posição de diretor de aluguel, como se testemunhou em “X-Men Origens: Wolverine” e “Ender’s Game: O Jogo do Exterminador”. Com “Decisão de Risco”, está de volta a uma dramaturgia mais condizente com o seu estilo.

Com base no excelente roteiro de Guy Hibbert (“Rastros de Justiça”), o cineasta a princípio gerencia as situações que sempre soam improváveis em contextos como o que narra. Não apenas a garotinha presente no lugar errado e na hora errada, como a incompetência dos representantes de órgãos que movem uma nação, como o Secretário do Estado Americano (Michael O’Keefe) deliberando às pressas sobre o ataque para não interromper o torneio de pingue-pongue que participa em Pequim.

Porém, ao invés de se apropriar dessas situações com um propósito satírico, Hood explora em todas elas as complicações em seguir com um plano que põe em risco a vida de uma criança ou sabotá-lo para que se efetive um ataque terrorista que pode matar ao menos uma centena de inocentes. Os bastidores dessa escolha são o que movimentam um filme enxuto e exemplar ao orquestrar uma tensão outrora vista em zonas de guerra e agora contida em uma visão privilegiada diante da maturação do terror. Independente da decisão para o impasse, as implicações éticas e morais darão um nó na garganta.