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Entrevista com Lívia Perez, diretora de “Lampião da Esquina”

.:: 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

Lançado com exclusividade no CineSesc há três meses, o documentário “Lampião da Esquina” volta aos cinemas para fazer parte da programação do Festival Mix Brasil. Na quarta-feira, 16 de novembro, saiu com uma Menção Honrosa na premiação do júri. Trata-se de um grande momento para a diretora Lívia Perez, que também colheu alguns reconhecimentos com o curta-metragem “Quem Matou Eloá?“, que assistimos durante a cobertura do 27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.

A seguir, conversamos com Lívia após a primeira exibição de “Lampião da Esquina” no Festival Mix Brasil, questionando, entre outras coisas, sobre o seu interesse pelo primeiro jornal do país direcionado ao público LGBT. Ela, inclusive, recomenda aos interessados o acesso no Grupo Dignidade, endereço que compartilha gratuitamente a versão digitalizada de todas  as edições Lampião – clique aqui.

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Quando aconteceu o seu primeiro contato com o jornal Lampião da Esquina?
Conheci o Lampião da Esquina por meio de um professor no meu último ano de faculdade, que o citou enquanto tratava sobre imprensa alternativa. Eu fiquei muito interessada, pois foi em um momento em que estava me cultivando como militante feminista, LGBT. Estava buscando sobre as questões referentes à identidade pelas quais sempre fui atraída. Percebi que havia todo o acervo online do Lampião, tive contato com o material e notei que todos os textos eram extremamente contemporâneos, tratando sobre assuntos que estamos discutindo até hoje.  Era uma forma de texto da qual nunca tive contato antes: ousada, irônica, provocativa, sagaz. Um artigo sobre aborto que li estava muito antenado ao contexto do ano em que conheci o jornal.

Como foi a decisão em transformá-lo em tema para um documentário?
Por ter essa conexão com a nossa contemporaneidade, tive a ideia para fazer o documentário, pois descobri que era um tema do qual as pessoas queriam discutir sobre. E há mais um assunnto fundamental, que é a mídia. Sou formada em comunicação social e tenho também uma militância em questão da mídia e sua democratização. Algo que o Lampião trazia, pois era uma publicação alternativa, feita voluntariamente, por pessoas de São Paulo e do Rio de Janeiro que decidiram se reunir entorno de uma causa, de um jornal que abordasse pautas que as pessoas desejavam se expressar naquela época. Era um jornal distribuído de modo colaborativo, com pontos de distribuição pelo país mantidos por voluntários. De algum modo, temos atualmente algumas alternativas que remetem ao Lampião. Não diretamente, mas com uma forma de organização parecida na web, a exemplo do Jornalistas Livres e Outras Palavras, ambos tratando sobre aspectos que não são contemplados pela grande mídia.

Atualmente, temos uma onda cada vez mais expressiva de documentários LGBT, como “Divinas Divas, “São Paulo em Hi-Fi” e “De Gravata e Unha Vermelha”. Como avalia a sua contribuição nesse segmento?
O que é muito legal nesses documentários é que os realizadores geralmente se conhecem. Assim, acaba acontecendo uma colaboração entre eles. O Lufe (Steffen, diretor de “São Paulo em Hi-Fi”) foi uma pessoa fundamental. Ele é creditado nos agradecimentos e me ajudou demais com materiais de arquivos. Queremos contar a história de uma época ou sobre uma temática ainda não prioritária para os grandes meios. Não adianta buscarmos no acervo da Globo sobre a Galeria Alaska, por exemplo. Ela e outros nomes da grande mídia não faziam registros sobre isso à época, muito menos com o olhar que eu queria. Busquei por muitos realizadores independentes, que colaboraram prontamente. Como o José Joffily e a Rita Moreira, esta fornecendo as imagens dos anos 1980 e 90 na Avenida Paulista perguntando às pessoas sobre o que achavam sobre o assassinato de travestis e homossexuais. Há essa colaboração nesse circuito mais independente, que é das identidades. Acabamos consumindo documentários dessa forma. Isso o que acho bacana, pois não é somente sobre a temática, mas também sobre a forma.

“Lampião da Esquina” por vezes não segue o padrão de somente posicionar os entrevistados diante de uma câmera. A exemplo do Edy Star, com depoimento colhido no Vão do MASP. Como foi captar essa irreverência?
Não houve nenhum esforço meu, pois eles já eram naturalmente irreverentes, tinham essa forma muito divertida de lidar sobre as questões.  Acho que é algo que já estava impresso no jornal, os personagens são assim na vida real. Também havia essa coisa deles me provocarem muito por eu ser mulher e haver uma diferença de idade muito grande entre nós. Às vezes eu fazia uma pergunta sobre ditadura para o (João Silvério) Trevisan e ele ficava puto, dizendo que viviam em uma ditadura. Dizia que precisava dele tratando sobre ela para o documentário. Mas era algo bacana, pois ele estava indignado, falando “olha, era totalmente inóspito naquele momento, vivíamos em uma ditadura, não dava para dar pinta!”.

Além de “Lampião da Esquina”, você exibiu neste ano o curta “Quem Matou Eloá?”. Se correto afirmar, são filmes jornalísticos sobre o jornalismo. O seu interesse por essa abordagem vem de sua formação ou de seu interesse pela repressão contra mulheres e minorias em nossa sociedade?
Tenho um grande interesse por dois temas: as identidades e a mídia. Ambos são muito presentes em minha vida, pautando toda a minha pesquisa, todo o meu trabalho, a forma como me expresso hoje. Tanto em “Lampião da Esquina” quanto em “Quem Matou Eloá?”, isso está combinado. Realmente trabalho nessa linha. Tanto a questão das identidades, pois hoje queremos extrapolar tudo e há toda uma onda conservadora, como a questão dos meios de comunicação, pois são extremamente concentrados no país e precisamos ter uma participação popular maior, propor alternativas.

Crédito da imagem em destaque: Jéssica Dalla Torre

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