Resenha Crítica | Blade Runner 2049 (2017)

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

Foi com muito custo que “Blade Runner, O Caçador de Androides” se transformou em obra de culto. Lançado em 1982, o filme de Ridley Scott não somente desapontou comercialmente, como também dividiu o público e a crítica especializada à época. O tempo, sempre ele, permitiu que “Blade Runner” tivesse uma segunda chance.

A história, inspirada em um romance de Philip K. Dick, se tornou mais palatável e o visual, de apelo extraordinário, fez com que “Blade Runner” fosse compreendido como algo à frente do momento para a qual foi concebido. As demais arestas o próprio Ridley Scott tratou de ajustar, lançado em intervalos diferentes versões alteradas diante daquela vista primeiramente nos cinemas.

Por tudo isso, é uma missão complicada para o canadense Denis Villeneuve fazer tributo a “Blade Runner” com uma sequência produzida 35 anos depois. Verdade que a contemporaneidade está sendo movida por um clima de nostalgia, mas tocar em “Blade Runner” é também desafiar toda uma gramática que até hoje é usada na ficção científica.

Assim sendo, “Blade Runner 2049” é relativamente digno como continuação. Sustentar os nomes de David Webb Peoples no roteiro e de Ridley Scott na produção executiva permite que a premissa não se desvincule necessariamente do original ao mesmo tempo em que lida com conceitos que ampliam o universo de Philip K. Dick.

Chamado por K, o protagonista de Ryan Gosling é uma espécie de nova versão do caçador de androides Rick Deckard (Harrison Ford), cujo paradeiro é desconhecido. Quando não cumpre com os seus deveres na LAPD, K preenche o vazio existencial com o que a tecnologia de 2049 oferece, a exemplo da interação com a imagem holográfica Joi (a cubana Ana de Armas, excelente) como se fosse sua companheira.

Novamente, nos deparamos com uma figura central refletindo sobre a sua função quando reconhece que os replicantes que deve capturar são constituídos de mais emoções que os próprios humanos. Uma constatação ampliada especialmente ao identificar os restos mortais de uma replicante que teria dado à luz e que o faz investigar sobre as próprias origens.

Ancorado pelo inglês Roger Deakins, diretor de fotografia 13 vezes indicado ao Oscar e que tudo indica que levará a estatueta no próximo ano pelo que promove aqui, Villeneuve está mais interessado em repaginar o cenário futurista do que meramente emular a estética retrô do “Blade Runner” original. Há soluções visuais de fato bárbaras, como aquela em que Joi se sincroniza com o corpo de uma garota chamada Mariette (Mackenzie Davis) para transar com K ou a cidade que parece ter se transformado em uma colmeia após um black out.

Para muitos, as virtudes cessarão aqui, pois o conteúdo filosófico que conhecíamos dá espaço aqui para um texto que perde a sua potência conforme Villeneuve o alonga para totalizar quase três horas de metragem, ambicionando por um estágio épico que definitivamente não alcança. É como se conseguíssemos traçar com antecedência os passos de K com larga vantagem, denunciando algo que prometia ser mais substancial.

Fica a dever também as ameaças representadas por Niander Wallace (Jared Leto, em participação tão inútil quanto a do seu Coringa em “Esquadrão Suicida”) e sua assistente Luv (Sylvia Hoeks, de “O Melhor Lance”, aqui afetadíssima), que corroboram para um clímax desapontador para um diretor como Villeneuve, então notável pela tensão que sempre impôs antes de resolver as suas histórias. Passado o hype, é bem possível que “Blade Runner 2049”, ao contrário de seu antecessor, não tenha lá muita vitalidade para sobreviver na posterioridade.

Data:
Filme:
Blade Runner 2049
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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