Resenha Crítica | O Artista (2011)

Quando o Oscar surgiu em 1929 para celebrar anualmente o melhor do cinema hollywoodiano, “Asas”, um drama de guerra da Paramount, conquistou o prêmio máximo daquela noite de 16 de maio de 1929, em Los Angeles, Califórnia. É uma informação importante em toda a história do cinema, pois foi a primeira e última produção muda a arrebatar o prêmio, algo que definiu uma mudança definitiva na sétima arte: a transição do cinema mudo para o falado. Tal evolução promoveu ainda mais o cinema ao mesmo tempo em que determinou o fim de uma era onde uma história era contada com o uso de poucos artifícios, o que consequentemente levaram vários intérpretes à decadência.

Famosos na França pelo espião OSS 117, o diretor e roteirista Michel Hazanavicius e o ator Jean Dujardin alcançam com “O Artista” uma fama inesperada ao encenar esta página há muito tempo virada em Hollywood. O ano é 1927 (exatamente o ano em que “Asas” foi produzido, aliás) e George Valentin (Jean Dujardin) experimenta a mesma fama de Rodolfo Valentino, vítima de uma morte precoce e maior astro que o cinema mudo já teve. Todas as produções que contam com o seu nome no cartaz rendem filas enormes nas bilheterias de cinema e as mulheres caem aos seus pés, a exemplo de Peppy Miller (Bérénice Bejo, esposa de Michel Hazanavicius), uma jovem determinada em seguir a carreira de atriz.

Porém, os dias de George Valentin nesta posição de estrela estão contados com a chegada do som (“O Cantor de Jazz” é o primeiro filme falado da história do cinema). O público, maravilhado com a novidade, passou a ignorar os filmes que George Valentin insistia em lançar. Assim, o seu declínio veio no mesmo embalo em que letreiros explicativos, músicos em salas de cinema e intérpretes com expressões faciais forçadas foram sendo esquecidos. O inverso acontece a Peppy Miller, dona da voz pelo qual todos os espectadores se apaixonam.

O cinema mudo não está efetivamente morto, como se vê em algumas obras que, apesar de sua parcela de diálogos, conseguem apresentar uma história com o suporte das imagens (na comédia “Rumba” e na animação “O Mágico” quase não há interações verbais, por exemplo). Porém, nenhuma se arriscou tanto quanto “O Artista”, que a todo o momento se apresenta como uma produção realmente rodada ao final da década de 1920. Neste filme de Michel Hazanavicius, não há diálogos, é em preto e branco e inteiramente rodado em formato 1.33:1. Já a maravilhosa dupla central formada por Jean Dujardin e Bérénice Bejo (merecidamente indicados ao Oscar) é só elogio. Donos de fortes expressões, Jean e Bérénice realmente se assemelham em talento e aparência as maiores estrelas do cinema mudo. A presença do cãozinho Uggie, um Jack Russell Terrier, torna “O Artista” ainda mais irresistível.

Misto perfeito de comédia, drama, romance e musical, “O Artista” vai além de um mero entretenimento nostálgico. Faz o registro de um passado que não pode ser resgatado, mas que oferece oportunidades para nos adaptarmos ao futuro. Afinal, cinema é uma arte em constante estado de mutação, que sempre se inova. Belíssima e singela homenagem a sétima arte com a qual o Oscar pode finalmente recompensar seus sucessivos erros com a exaltação de um filme realmente digno de celebração.

Título Original: The Artist
Ano de Produção: 2011
Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch, Ken Davitian, Uggie e Malcolm McDowell
Cotação: 4 Stars

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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