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Resenha Crítica | Segredos de Sangue (2013)

Segredos de Sangue | StokerPark Chan-wook faz parte de um seleto grupo de cineastas sul-coreanos cujo talento para a arte cinematográfica é impossível de reproduzir por outras mãos. Após o sucesso da “Trilogia Vingança” (composta por “Mr. Vingança”, “Oldboy” e “Lady Vingança”) no Ocidente, o ingresso de Park Chan-wook nos Estados Unidos seria uma mera questão de tempo.

A boa notícia é que “Segredos de Sangue” é um projeto independente que oferece a oportunidade para Park Chan-wook desdobrar da maneira que deseja um roteiro que não é da sua autoria. Estrela do seriado “Prison Break”, o ator Wentworth Miller inicia de modo promissor a sua carreira como roteirista em “Segredos de Sangue”, claramente influenciado por “A Sombra de Uma Dúvida”, de Alfred Hitchcock.

A verdade é que nas mãos de um cineasta qualquer, “Segredos de Sangue” resultaria em um longa-metragem comum sobre a transição da adolescência para a maturidade e as tentativas de uma protagonista em descobrir e aceitar a sua própria essência. Com Park Chan-wook por trás das câmeras, “Segredos de Sangue” sustenta uma narrativa mais visual, em que cada imagem é cuidadosamente concebida e que absolutamente nada soa aleatório. O apuro estético é logo testemunhado na sequência de créditos iniciais, em que o nome de Park Chan-wook se desfaz em meio a fumaça de velas de aniversário abafadas em um recipiente de vidro.

India Stoker (Mia Wasikowska) acaba de perder o pai Richard (Dermot Mulroney), talvez o único elo que tinha entre o mundo real e seu universo particular. Isso porque India não tem amigos ou qualquer afinidade com a mãe Evelyn (Nicole Kidman), buscando refúgio nos momentos em que passava com o pai e em seus próprios devaneios vindos de uma perspectiva diferenciada diante das coisas (India tem alguns sentidos, como a visão e a audição, bem apurados).

Desorientada, India chega aos dezoito anos não apenas abatida com a tragédia familiar como também não compreendendo a sua própria natureza. Isso tende a mudar com a chegada de Charlie (Matthew Goode), um tio cuja existência desconhecia e que apresenta intenções de ficar por tempo indeterminado na casa em que vive. Tratando-o a princípio com frieza, India apresenta uma estranha sintonia com Charlie, uma mistura de sedução e perigo. Já Evelyn, que antes de enviuvar estava presa em um casamento infeliz, visualiza em Charlie uma versão jovem e encantadora de Richard. A desestrutura na dinâmica entre os personagens é evidenciada em planos em que todos jamais são visualizados juntos, o que automaticamente preenche qualquer lacuna sobre as razões que levaram a família Stoker se tornar tão desunida.

Amparado por uma equipe muito especial, como o diretor de fotografia Chung Chung-hoon, o compositor Clint Mansell e a supervisão de Ridley Scott como produtor, Park Chan-wook faz um intrigante estudo da concepção da psicopatia. Quando finalmente as intenções de Charlie ficam claras e a inocência de India desaparece, “Segredos de Sangue” abraça as suas raízes mais violentas, mas desenvolvidas com a sutileza já conhecida de Park Chan-wook em qualquer longa-metragem anterior de sua filmografia. Como o fenômeno que faz as flores crescerem com uma coloração imprevista, India finalmente descobre ao final de “Segredos de Sangue” que não há nada que possa fazer para impedir os impulsos que correm em seu sangue, senão abraçá-los.

Stoker, 2013 | Dirigido por Park Chan-wook | Roteiro de Wentworth Miller | Elenco: Mia Wasikowska, Matthew Goode, Nicole Kidman, Alden Ehrenreich, Dermot Mulroney, Jacki Weaver, Phyllis Somerville, Lucas Till, Tyler von Tagen, Thomas A. Covert, Ralph Brown, Judith Godrèche e Harmony Korine | Distribuição: Fox

8 Comments

  1. Praticamente tudo me desapontou nesse filme. Até a proposta do “fim da inocência” da protagonista me pareceu abrupta, mal trabalhada. Gosto da direção e do roteiro… só acho que eles simplesmente não combinam! Em filmes separados, seriam mais impactantes.

  2. Confesso que a sua opinião foi a primeira que li sobre “Segredos de Sangue” que realmente faz elogios ao filme de Chan-Wook Park. Para mim, o que me atrai a atenção nesta obra é o seu elenco, além, é claro, da chance de conferir a estreia do diretor coreano no cinema hollywoodiano. Aguardo, aliás, os ingressos que ganhei na promoção daqui do Cine Resenhas, bem como torço para que o filme estreie na minha cidade.

  3. Matheus, “Stoker” é um filme muito visual, todas as transformações que acontecem na protagonista ocorrem através da imagem. Vejo muita sintonia entre roteiro e direção.

  4. Kamila, se bem que não podemos dizer que “Stoker” é cinema hollywoodiano. O projeto aconteceu bem longe da pressão de estúdios, apesar do nome de Ridley Scott na produção. E os ingressos já foram enviados. Espero que você os receba o mais breve possível.

  5. […] estreia de Park Chan-wook no cinema americano, “Segredos de Sangue” atraiu ótimos nomes até mesmo em papéis breves, evidenciando a força do nome do cineasta […]

  6. […] A verdade é que nas mãos de um cineasta qualquer, “Segredos de Sangue” resultaria em um longa-metragem comum sobre a transição da adolescência para a maturidade e as tentativas de uma protagonista em descobrir e aceitar a sua própria essência. Com Park Chan-wook por trás das câmeras, “Segredos de Sangue” sustenta uma narrativa mais visual, em que cada imagem é cuidadosamente concebida e que absolutamente nada soa aleatório. O apuro estético é logo testemunhado na sequência de créditos iniciais, em que o nome de Park Chan-wook se desfaz em meio a fumaça de velas de aniversário abafadas em um recipiente de vidro. + […]

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