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Cães Errantes

Cães Errantes | Jiao you

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Enquanto duas crianças dormem, uma mulher senta à beira da cama que elas dividem com um olhar vazio. É certo que ela é mãe delas, mas as possibilidades que nos perturbam a partir de sua expressão são inúmeras. Estaria esta mãe decidida a abandoná-las, refletindo sobre sua própria existência ou a cometer um ato irreversível? Tudo isso está presente somente no primeiro take de “Cães Errantes”, novo longa-metragem de Tsai Ming Liang que se constrói a partir de momentos como esse.

A seguir, as mesmas crianças (interpretadas por Lee Yi-cheng e Lee Yi-chieh) são vistas na presença do pai (Lee Kang-sheng), que passa por um sufoco diário para sustentá-las. Durante o dia, trabalha nas ruas de Taipei executando aquele que pode ser considerado um dos piores trabalhos no mundo: outdoor humano. As chuvas severas amplificam o sentimento de pena por um homem totalmente ignorado em um cenário que se verticaliza.

As noites passadas com os filhos não amenizam o desconforto insuportável nesta luta pela sobrevivência. A higiene básica é mantida em banheiros públicos e a alimentação diária é feita através de restos de comida ou amostras grátis de supermercados. O cubículo improvisado em uma área abandonada serve de lar para esta família.

Os diálogos são usados com economia em “Cães Errantes” e o cineasta Tsai Ming Liang é implacável no modo como registra cada acontecimento. São especialmente perversas duas cenas de aproximadamente cinco minutos em que a fragilidade do protagonista é exposta. Na primeira, um close em seu rosto registra o processo de desmoronamento emocional enquanto sustenta uma placa contra uma forte ventania. Na segunda, o vemos comendo frango como um animal esfomeado.

Tsai Ming Liang felizmente quebra as expectativas quando o discurso social deixa de ser o seu principal alvo. A figura materna, até então ausente, ganha um novo significado quando a certeza de que há muitas camadas ocultas sobre o protagonista se aproxima com a introdução de uma personagem a princípio alheia a tudo o que testemunhamos dolorosamente.

De certo modo, a experiência de se ver “Cães Errantes” é a mesma que mergulhar em uma galeria de imagens de um artista anônimo. O desconforto inicial é paulatinamente substituído por um sentimento de fascínio quando finalmente contemplamos as mesmas imagens com um olhar já amadurecido. Trata-se de algo oferecido por Tsai Ming Liang ao longo de “Cães Errantes”: a mesma pintura visualizada por uma personagem no meio da narrativa representa a nós mesmos quando mostrada pela segunda vez em uma conclusão fenomenal.

Jiao you, 2013 | Dirigido por Tsai Ming Liang | Roteiro de Tsai Ming Liang, Song Peng Fei e Yu Tung Chen | Elenco: Lee Kang-sheng, Chen Shiang-chyi, Lee Yi Cheng, Lee Yi Chieh e Lu Yi Ching | Distribuidora: Filmes da Mostra | Perspectiva Internacional

3 Comments

  1. […] a escolha é para valer, antes fosse “Cães Errantes” o seu último filme, este repleto de elementos que podem ser compreendidos como uma […]

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