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Resenha Crítica | Uma Nova Amiga (2014)

Uma Nova Amiga | Une nouvelle amie

Une nouvelle amie, de François Ozon

Um dos cineastas franceses mais ativos do cinema contemporâneo, François Ozon consegue estabelecer uma média de uma produção por ano – em 2013, o Brasil recebeu “Dentro de Casa” e “Jovem & Bela”. Além da regularidade, impressiona a sua ousadia em circular por temas e gêneros com muita propriedade, preenchendo com vigor projetos que poderiam muito bem ser conduzidos no automático. Ainda assim, é inevitável não identificar em uma filmografia vasta alguns momentos menos inspirados, especialmente em casos como o de Ozon, que costuma trabalhar uma nova história assim que lança o seu filme mais recente.

No excelente prólogo de “Uma Nova Amiga”, acompanhamos todas as fases da amizade entre Claire (Anaïs Demoustier) e Laura (Isild Le Besco), da infância até a idade madura. De certo modo, é possível deduzir que Claire sempre se sentiu um pouco inferiorizada diante de Laura, pois sempre é a última a alcançar os seus objetivos, especialmente no campo amoroso. Laura é a primeira a se casar, tendo como parceiro David (Romain Duris), enquanto Claire parece se comprometer com Gilles (Raphaël Personnaz) mais por conveniência do que por amor.

São duas amigas que prometiam um curso previsível de vida, se não fosse uma doença que resumisse a existência de Laura, pouco tempo após dar à luz. Devota à Laura, Claire promete que cuidará tanto do bebê quanto de David. Mas eis que o viúvo é surpreendido por ela não apenas vestindo as roupas de Laura, como também usando a sua maquiagem. David tenta se explicar: ele sempre teve uma mulher interior, aprisionada pelo matrimônio e agora clamando por liberdade. Mesmo com o susto, Claire compreende  que deixar Virginia, a versão feminina, à solta seja o melhor meio de administrar o luto, tanto o de David quanto o seu.

Falecida em 2 de maio deste ano, a escritora Ruth Rendell inspirou Pedro Almodóvar em “Carne Trêmula”. Embora Ozon seja também um cineasta com produções que valorizam a diversidade de cores (“8 Mulheres”, “Potiche – Esposa Troféu“), em “Uma Nova Amiga” há muitos elementos que remetem ao cinema do realizador espanhol. Não somente as tintas, como também as relações e o modo progressivo como David deixa Virginia sucumbi-lo, uma transição comum em personagens almodovarianos. O desapontamento se concentra no uso que faz de Claire diante da aceitação das diferenças de David e o quanto abraçá-las é importante para que ele volte a se apresentar à sociedade, mas como Virginia. Os desdobramentos deste processo são esquemáticos, até mesmo em tomadas mais atrevidas, e nos faz questionar se Ozon estava realmente em sua melhor forma ao conceber “Uma Nova Amiga”.

4 Comments

  1. Estou curioso quanto a essa obra, mas confesso que a carreira do diretor é feita de altos (Os Amantes Criminais) e baixos (Potiche) Veremos …

  2. Cinéfila por Natureza Cinéfila por Natureza

    Amo François Ozon e faz tempo que não assisto a um filme dele. Fiquei curiosa em relação a esse “Uma Nova Amiga”.

    • Kamila, estava com saudades do Ozon, pois em 2013 tivemos os lançamentos de “Dentro de Casa” e “Jovem & Bela”, o que nos fez ficar sem um novo filme ano passado. É um bom filme, mas o acho muito convencional, ainda que dentro de uma premissa nada usual.

  3. ede ede

    Quase todos os elementos de Almodôvar estão no filme, com exceção do “french way of life”. Vá de espírito livre e sem preconceitos. Os partidários de cross dresser vão gostar. Não estranhe se seu parceiro começar a discutir cores de batom e de vestido…faz parte.

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