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Resenha Crítica | Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte (2014)

Gemma Bovery - A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery)

Gemma Bovery, de Anne Fontaine

Há uma série de grandes clássicos da literatura estrangeira que prossegue resistindo ao tempo não somente pelas tragédias que nos arrebatam, mas também pela sedução que há em experimentar durante a leitura a potencialidade de um sentimento humano tão profundo quanto o amor. A desilusão acaba vindo como uma consequência, mas até aí o leitor já se tornou cúmplice de uma entrega irreversível.

Diretora fascinada por “Madame Bovary”, Anne Fontaine fez a excelente escolha de ignorar a possibilidade de fazer mais uma adaptação direta do romance de Gustave Flaubert. Ao invés disso, preferiu se inspirar em um romance de Posy Simmonds chamado “Gemma Bovery”, que traz um personagem contemporâneo testemunhando com muita proximidade a chegada de uma mulher atraente que parece condenada a repetir o martírio emocional de Emma Bovary.

“Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” faz exatamente o que sugere o seu subtítulo: oferecer ao espectador o prazer de uma grande personagem ficcional ganhar vida diante dos olhos de Martin Joubert (Fabrice Luchini), um padeiro entediado que tem como nova vizinha Gemma Bovery (Gemma Arterton), inglesa casada com Charlie (Jason Flemyng). É Martin que revela a essa mulher estonteante a semelhança de seu nome com o de sua heroína trágica favorita e que se ressente em intervir em seu relacionamento extraconjugal com o jovem rico Hervé (Niels Schneider).

As boas sacadas de Posy Simmonds já haviam sido utilizadas no cinema com “O Retorno de Tamara“, uma versão cheia de humor ácido que renova as bases de “Longe Deste Insensato Mundo”, de Thomas Hardy. Felizmente, Gemma Arterton foi lembrada para viver uma segunda personagem de Posy, trazendo novamente a sua exuberância atrelado a um talento dramático nem sempre aproveitado por outros nomes que a dirigiu.

No entanto, os ótimos resultados de “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” devem ser creditados também à Anne Fontaine, que encontrou em uma trama bem fluída e encenada com sofisticação uma aproximação com a sua própria obra, cercada de indivíduos que estimam por alguma turbulência na vida plana em que se acomodaram. Portanto, a identificação não é com a figura de Gemma Bovery/Emma Bovary, mas com o ingênuo Martin, peça essencial de uma resolução cheia de ironia e de surpresas bem pregadas.

Tivemos uma rápida conversa com a cineasta francesa Anne Fontaine durante a sua passagem ao Brasil para promover “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” no Festival Varilux de Cinema Francês. Para ler, clique aqui.

3 Comments

  1. Amo o ritmo e a musicalidade do cinema europeu, a finalização da trama foi surpreendente e o “final adicional”, mais ainda… Os olhares embasbacados do Martin analisando e devorando Gemma explicam totalmente a palavra “dominado”. Os outros homens a desejavam, ele a endeusava.

  2. Outra coisa, o Fabrice Luchini lembrou-me muito o Tato Gabus Mendes, achei-os muito parecidos, fisicamente e até pelo jeito tranquilão, mas nem tanto.

  3. Vera, exatamente. Mas o que realmente gosto é o fato da narrativa não se ater com exclusividade ao “Madame Bovary”, trazendo a premissa para o nosso contexto. E eu simplesmente adoro o impacto daquele clímax, especialmente pela escolha em repeti-lo a partir de perspectivas distintas. E a conclusão é simplesmente saborosa, dei uma boa gargalhada.

    Em tempo: arrisquei pesquisar algumas fotos mais recentes do Tato Gabus Mendes e achei a comparação bem apropriada.

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