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Resenha Crítica | O Silêncio do Céu (2016)

Era el Cielo, de Marco Dutra

Um acontecimento de forte impacto marca o prólogo de “O Silêncio do Céu”. Dentro de sua própria casa e sem possibilidade de se rebelar, Diana (Carolina Dieckmann) é violentada por dois homens. Minutos depois, o episódio é reprisado, mas a partir de uma perspectiva que não tínhamos deduzido que existiria: a do marido de Diana, Mario (Leonardo Sbaraglia), que vê os dois indivíduos abandonando o local sem antes conseguir efetivar alguma ação contra eles.

Baseado em um romance assinado por Sergio Bizzio, “O Silêncio do Céu” é o terceiro longa-metragem de Marco Dutra e o seu primeiro em que se aventura a rodar em outro país e língua. A princípio, há um dilema moral que o aproxima muito do sueco “Força Maior“, em que um homem se vê desacreditado no fracasso de seguir o instinto de proteger a sua mulher.

Uma impressão inicial que logo dá lugar a um território desconhecido povoado por figuras que Mario não sabe bem como abordar. Não é com dificuldades que o protagonista, um homem cheio de fobias, identifica que os agressores são os irmãos Néstor (Chino Darín) e Andrés (Alvaro Armand Ugon). O primeiro é um sujeito instável, cheio de tiques estranhos, que trabalha ao lado de sua mãe Malena (Mirella Pascual) em um viveiro. Já o segundo é um dono bem-sucedido de uma agência e diferente de sua família.

Em um período em que a violência contra a mulher vem sendo discutido com maior intensidade a partir de movimentos pautados pelo empoderamento feminino, é fácil associar “O Silêncio do Céu” ao tema com base no trauma sofrido por Diana. No entanto, é importante frisar que o texto nas mãos de Marco Dutra é de um thriller que não está interessado somente nesta temática, debatendo questões sobre aparências e a incomunicabilidade entre pessoas que dividem o mesmo teto.

Mario e Diana expressam as suas intimidades não com interações verbais um com o outro, mas em narrações que somente o espectador tem o privilégio de ouvir. Há metáforas visuais que correspondem essa barreira entre duas pessoas que se amam. Algumas primorosas, como uma pedra intacta em uma mesa após não ser usada para evitar o ato que abre a história. Outras um tanto excessivas, como os cactos que representam os espinhos que o casal se blindou.

É o melhor trabalho até aqui de Marco Dutra. Segunda parceira com o produtor Rodrigo Teixeira (com quem trabalhou em “Quando Eu Era Vivo”), “O Silêncio do Céu” permite a Dutra evoluir como um contador de histórias deixando um pouco de lado os elementos sobrenaturais de sua obra sem antes resgatar a excentricidade que eles têm. Não é à toa que o sentimento de estranheza se manifesta como nunca na presença da extraordinária Mirella Pascual, fazendo do arrastar de pé de sua personagem o melhor símbolo para expressar uma deformidade coletiva.

2 Comments

  1. Não tinha pensando no filme sob a perspectiva de Força Maior e não posso discordar dela. No entanto Marco Dutra ainda não superou sua marca de Trabalhar Cansa, ainda seu melhor trabalho pra mim.

    • Marcelo, foi mais uma impressão inicial mesmo, de ver um homem impotente diante de um acontecimento que se aguarda naturalmente que alguma intervenção seja tomada no automático. Penso que em “O Silêncio do Céu” o Dutra fez o seu trabalho mais maduro. A ausência de elementos sobrenaturais, tão difíceis de serem gerenciados, fez bem para ele aqui.

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