Mulher-Maravilha e a sua falsa representatividade feminina

Wonder Woman, de Patty Jenkins

O mundo está em êxtase com “Mulher-Maravilha”. Altamente favoráveis, as críticas fizeram com que o universo da DC finalmente atingisse o mesmo nível de respeito então monopolizado pela Marvel. O público também está respondendo à altura, como apontou a queda de arrecadação do primeiro para o segundo fim de semana nas bilheterias americanas – embora expressivos, os 43% a menos de faturamento são bem inferiores aos 69% apresentados por “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”.

Se os números são incontestáveis, o mesmo não pode ser dito sobre o que tem sido pregado como uma revolução: a posição assumida por “Mulher-Maravilha” como o aguardado representante do blockbuster de ação vindo do mundo dos quadrinhos endereçado especialmente para a audiência feminina e a sua ânsia por mais modelos heroicos. Pois quem se deixou levar pela propaganda, está se contentando com muito pouco.

Os trailers evidenciaram essa pegada que soa mais como oportunista do que efetiva em um meio de entretenimento que ainda desconhece os princípios de igualdade, seja de gênero ou de raça. Entre as piadinhas, Diana (Gal Gadot), a princesa das Amazonas, questiona à Etta (Lucy Davis), uma mera mortal, se uma secretária seria um modo gentil de se dirigir a uma escrava, pois ela diz que faz tudo o que é solicitado por um homem, o espião Steve Trevor (Chris Pine).

Já nos 141 minutos do filme, há poucas investidas de mesmo cunho. De inédito, teremos Diana entrando em uma loja de roupas com os trajes de Amazonas e saindo a contragosto com peças que julga como camisas de força, a exemplo dos vestidos com espartilhos. A heroína só é plena com os itens e adornos sumários de Amazona, guerreando com espada, escudo, braceletes e o laço da verdade, este extraindo tudo o que quer de seu inimigo.

Israelense com participação pouco memorável em alguns capítulos da franquia “Velozes & Furiosos”, Gal Gadot é mesmo um acerto como a nova encarnação de Mulher-Maravilha. A sua aparição em “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”, embora fruto de um deus ex machina boboca, é uma das poucas coisas que se salvam.

Agora em um filme só seu, a protagonista é persistente com as suas crenças e valores mesmo que todos a vejam como uma Alice no “país das desmaravilhas” em busca de Ares, o deus da destruição. Também nada há de sexualizada em sua caracterização, com a figurinista Lindy Hemming desenhando armaduras de combates cobrindo corpos que não escondem as cicatrizes e a sujeira de mulheres obstinadas em guerrearem para proteger a redoma em que vivem.

Patty Jenkins instruindo a Amazona Gal Gadot: direção feminina de aluguel em projeto idealizado por homens

É o mínimo que se espera de Patty Jenkins e é só o que ela entrega como diretora de “Mulher-Maravilha”. Americana, a cineasta debutou em longa-metragem com 30 e poucos anos com “Monster: Desejo Assassino”, sendo uma contribuição indispensável para o extraordinário desempenho de Charlize Theron, que levou o Oscar pela sua caracterização como a assassina em série Aileen Wuornos. Afora projetos televisivos, Jenkins levou 14 anos para voltar ao cinema.

Irônico constatar que o seu drama de estreia sobre uma figura real que causa tanta repulsa contribui muito mais para compreender a posição da mulher na sociedade do que a sua fantasia com uma protagonista que nada deve em carisma. Em “Monster”, Wuornos jamais tem os seus atos inocentados, mas se compreende a sua natureza e o meio que habitou, primeiro retratando uma garota em progresso vulnerável pelo abuso dos homens para depois transformá-la em um “monstro” que se rebela contra eles.

Em “Mulher-Maravilha”, Patty Jenkins tem a ilusão de que está mudando os paradigmas do protagonismo feminino, mas a sua direção não exerce resultados efetivos. Ao contrário, pois a história, a ação e a costura não têm qualquer assinatura autoral. Quando Diana finalmente explode, não se vê uma mulher no ápice de sua destreza, mas sim um uso de efeitos visuais que a transformam em um borrão veloz ou em uma matéria envolta a um CGI de muito mau gosto, como a do canhão erguido com apenas uma de suas mãos. É fazer correr pela sarjeta toda uma preparação física que poderia ser usada em favor de soluções práticas.

Além do mais, o que caracteriza uma grande heroína é um grande inimigo. Em “Mulher-Maravilha”, a ala de opostos só a enfraquece. Na pele da espanhola Elena Anaya, a  Doutora Maru é uma oportunidade desperdiçada como vilã, provando que uma tentativa de representação feminina não se sustenta se as presenças secundárias não têm função ou relevância dramática.

“Mulher-Maravilha” é o melhor que a DC apresentou até agora? Sem dúvidas, ainda que tal feito seja fácil em um universo com “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” e “Esquadrão Suicida”. Agora, vê-lo como um novo ícone para o empoderamento feminino soa tão falso quanto a promessa da Disney e da Lionsgate/Saban em fazer jus à comunidade LGBT quando anunciaram presenças homossexuais respectivamente em “A Bela e a Fera” e “Power Rangers”. Com 31 anos de vida, “Aliens – O Resgate” fez muito mais do que “Mulher-Maravilha” e as suas práticas mercadológicas que mais parecem um conto do vigário.

Data:
Filme:
Mulher-Maravilha
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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